sábado, 29 de dezembro de 2012

Estudos no Sermão do Monte / parte 16 - A Grande Pecaminosidade do Pecado


A GRANDE PECAMINOSIDADE DO PECADO

 

Elaborado com base em estudo com mesmo tema em

Estudos no Sermão do Monte, de M. Lloyd-Jones.

 

“27 ¶ Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. 28  Eu porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela. 29  Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. 30  E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.” (Mateus 5:27-30 RC)

 

01. Diante de nós está um exemplo semelhante ao anterior:

a.    Fizemos uma leitura do exemplo anterior considerando que matar não significa apenas cometer o homicídio literal;

b.    E agora, neste exemplo, podemos fazer uma leitura semelhante e verificar que adultério também não acontece apenas quando cometemos o ato literal – o ato literal é apenas a consumação daquilo que já aconteceu no coração.

02. A palavra de Jesus é bastante clara e se quisermos nos deter apenas no assunto “adultério”, até poderíamos apenas ler o texto. Entretanto, essa palavra de Jesus nos leva a pensar naquilo que Lloyd- Jones denomina de “a grande pecaminosidade do pecado”, que é algo que precisamos compreender e de cuja compreensão depende o entendimento acerca da própria salvação e de tudo o que nela está envolvido.

03. Por que Jesus morreu na cruz? Por que ele se recusou que seus seguidores o defendessem? Por que ele não recorreu, como bem poderia ter feito, segundo ele mesmo, ao auxílio de doze legiões de anjos para o protegerem no momento em que o prenderam? Qual é o significado da morte de Cristo na cruz?

04. Essas são perguntas que não podem ter respostas corretas a menos que compreendamos o que é o pecado e a sua gravidade.

05. Não evangelizaremos de verdade se não temos compreensão do que é o pecado. Antes de oferecer às pessoas uma maravilhosa vida nova tendo Jesus como Amigo é preciso levá-las à convicção de pecado, do que ele realmente é e de sua real gravidade.

06. Nas palavras de Lloyd-Jones:

 

O evangelismo autêntico, em virtude da doutrina do pecado, sempre deve ter início pela pregação das exigências da lei. Isso significa que devemos explicar que a humanidade está diante da Santidade de Deus, que os homens são confrontados pelos Seus requisitos e também pelas horrendas consequências do pecado. É o próprio Filho de Deus quem adverte os homens da possibilidade de serem lançados no inferno. Ora, se porventura você não gosta (crê) da doutrina do inferno, então está simplesmente discordando de Jesus Cristo. Ele, que é o Filho de Deus, acreditava na existência do inferno; e é na exposição do que Ele fez sobre a verdadeira natureza do pecado que descobrimos que Ele ensinou que o pecado, em última análise, leva os homens ao inferno. Assim sendo, a evangelização de uma pessoa deve começar pela santidade de Deus, pela pecaminosidade do homem, pelas exigências da lei, pela punição determinada pela lei e, finalmente, pelas eternas consequências do mal e da prática da injustiça. Somente o indivíduo que foi levado a perceber a sua culpa, dessa maneira, pode recorrer a Cristo, para dEle receber livramento e redenção.

 

07. Não compreenderemos corretamente o evangelho e não evangelizaremos corretamente, bem como não possuiremos verdadeira santidade e não compreenderemos de verdade o amor de Deus a menos que entendamos no que consiste o pecado.

08. A menos que compreendamos que o pecado não consiste apenas de atos praticados, laboraremos em erro assim como faziam os fariseus.

09. Jesus nos ajuda a entender isso quando, com suas palavras expressas nestes versos, nos direciona o pensamento para três fatos acerca do pecado. O primeiro é:

 

A profundeza do pecado.

 

01. “Qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”, disse Jesus. E isto significa que o pecado não envolve apenas uma questão de atos, antes é algo que está no interior do coração humano. Os atos são apenas a superfície, o pecado está localizado em lugar muito mais profundo do que naquilo que vemos na superfície.

02. Os atos pecaminosos são, podemos assim dizer, os sintomas da enfermidade chamada pecado que está arraigada no coração humano.

03. Essa é a verdade que Jesus destaca para nós neste texto. O fato de você nunca ter cometido um ato de adultério não significa que você não tenha qualquer culpa nesta área. Para aqueles que disto se orgulham e talvez até digam, como o fariseu que foi ao templo orar disse dos demais homens e do publicano que ali também estava, se comparando como melhor por não cometer os mesmos atos, talvez Jesus faça a pergunta: “O que você me diz sobre o seu coração?”

04. Como está o seu coração, meu irmão?

05. Em provérbios 4.23 lemos: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida.”

06. O profeta Jeremias já dizia: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9 RC)

07. Jesus disse, e Marcos Registrou que: “21 ... do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, 22  os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. 23  Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem.” (Marcos 7:21-23 RC)

08. É por isso que Jesus disse nas bem aventuranças que “bem aventurados são os que choram” e que “bem aventurados são os que têm fome e sede de justiça”, isto é, bem aventurados são aqueles que lamentam e que gemem por causa do pecado ansiando dele serem completamente livres. Aqueles que isso fazem entendem o quão profundo ele é e o quão arraigado ele está no coração humano fazendo dele um miserável pecador diante da Santidade de Deus, mesmo que não cometa determinados atos, mesmo que não manifeste determinados sintomas.

09. Veja o desespero de Paulo por causa do pecado e depois o seu alívio por causa da libertação em Jesus Cristo:

 

Romanos 7:

 

¶ Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. 8  Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda a concupiscência: porquanto, sem a lei, estava morto o pecado. 9  E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri; 10  e o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte. 11  Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou e, por ele, me matou. 12  Assim, a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom. 13  Logo, tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum! Mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem, a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. 14 ¶ Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. 15  Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço. 16  E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17  De maneira que, agora, já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. 18  Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. 19  Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço. 20  Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. 21  Acho, então, esta lei em mim: que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. 22  Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. 23  Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. 24  Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? 25  Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado.

 

Romanos 8:

 

1 ¶ Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito. 2  Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.

 

10. Não que Paulo vivesse cometendo atos pecaminosos, mas ele sabia que, mesmo não cometendo tais atos, o pecado estava enraizado no mais profundo de sua natureza humana.

11. Precisamos compreender essa profundidade do pecado. E, tendo essa compreensão, compreenderemos também o quão desesperadamente nós e todas as demais pessoas precisamos do Senhor Jesus.

 

12. Convém, antes, de encerrar esse ponto, fazer algumas observações:

a.    Jesus, ao apontar mais para o coração do que para o exterior, não nos está autorizando a ter um comportamento de autojustificação quando cometermos um ato pecaminoso, julgando as outras pessoas dizendo que elas não “fizeram” mas o pecados está lá em seus corações.

b.    A disciplina por parte da igreja, especialmente a disciplina cirúrgica, é aplicada em geral com base nos atos pecaminosos e não com base no pecado abrigado no coração, mesmo porque não temos condições de julgar o coração de ninguém com respeito a algum assunto em particular e também porque se assim o fosse talvez todos nós tivéssemos que ser objeto de tal disciplina.

c.    Não obstante não sejam, em geral, aplicáveis determinados tipos de disciplina por parte da igreja àquilo que se comete no coração, não ficamos sem disciplina alguma. O que estamos fazendo aqui hoje, por exemplo, através deste estudo, pode se encaixar naquilo que se diz ser “disciplina formativa”.

 

13. Dito isto, passemos ao segundo fato:

 

A sutileza do pecado.

 

01. Por sutileza quero dizer capacidade de se infiltrar rápida e sorrateiramente e também a capacidade de desviar nossa atenção do foco que deveria ser o objeto de nossa atenta observação.

02. No caso em questão, o do adultério, tudo começa com um olhar.

03. Isso me faz lembrar o caso de Davi e Bate-Seba [1] – tudo começou com um olhar.

04. Isso me faz lembrar também de que às vezes somos grandemente tentados nesta questão e não “caímos” conforme muitos já “caíram”, e ficamos felizes, e de tão felizes até contamos com muita alegria para algum amigo nosso, dizendo como “quase” caímos e como Deus nos deu forças... Glória a Deus porque não chegamos ao “fim desse caminho”, mas não devemos nos esquecer de que se “quase” caímos é porque alguma parte desse caminho nós trilhamos e, portanto, pecamos, e a sutileza do pecado se manifesta desviando o foco do nosso olhar do fato de que pecamos no coração para o fato de que não cometemos o ato que o nosso coração desejou cometer, e porque não cometemos o ato e ficamos muito felizes, não nos damos conta de que pecamos e nos esquecemos de pedir perdão a Deus.

05. Confesso aos irmãos que enquanto penso sobre essa questão, divagando em minha mente acerca de diversas situações, a única conclusão a que consigo chegar é a de quão contaminados pelo pecado nós somos e quão perdidos nós estaríamos não fosse Cristo.

a.    Há a possibilidade de eu estar pregando para os irmãos e estar pecando ao mesmo tempo.

b.    Há a possibilidade de eu estar cantando um louvor a Deus aqui na frente e estar pecando ao mesmo tempo.

c.    Há a possibilidade de eu estar bem adiantado no processo da santificação, além de muitos ao meu redor e justamente por causa disso pecar.

d.    Há a possibilidade de eu desenvolver de forma excelente o meu ministério e acabar justamente isso me levando a pecar – eu posso me tornar orgulhoso de mim mesmo.

e.    Ao que me parece o pecado está por perto em todas as nossas ações e intenções e sutilmente as permeia quando nós menos esperamos e até mesmo sem nos darmos conta disso.

06. João Alexandre canta uma música intitulada “Coração” onde em uma parte ele canta perguntando: “Coração – entre o bem e o mal que distância haverá?”.

07. Quanto mais eu penso sobre isso, quanto mais eu me dou conta de o quanto o pecado está intrinsecamente arraigado em nossa natureza carnal, mais eu me dou conta de o quanto não apenas aquelas pessoas que vivem na prática de atos pecaminosos como também aquelas que em tais práticas não vivem precisam de Cristo [2]; mais eu compreendo a razão porque Jesus disse que bem aventurados são os que choram e que bem aventurados são os que têm fome e sede de justiça, sendo esse choro ou lamento justamente por causa do pecado e a fome e sede de justiça o ansiar por ser completamente livre desta praga que atinge a humanidade inteira; e também mais compreendo o desespero de Paulo e sua posterior expressão de alívio por causa de Cristo, registrados em Romanos 7.

08. Vamos adiante e pensemos um pouquinho, por último, sobre:

 

A natureza e o efeito pervertedores do pecado.

 

01. Perverter significa perturbar a ordem, desvirtuar, tornar mau...

02. O pecado é tão pervertedor e tão devastador que, sob sua influencia, aquilo que Deus me deu com o intuito de servir para o meu bem, acaba por se tornar meu inimigo.

03. Enxergamos isso pelo fato de Jesus dizer para arrancar o olho ou a mão que escandaliza. Obviamente que isso disse Jesus de forma simbólica, se não teríamos muitos cegos e manetas nas igrejas.

04. Então, o pecado desvirtua, torna mau... Nossos instintos da natureza humana, por exemplo, são em sua origem excelentes. Mas esses mesmos instintos acabam por se tornar nossos inimigos por causa do pecado.

 

Concluindo:

 

01. Não adulterarás!? Naturalmente que não. Mas, como está o nosso coração e a nossa mente no tocante a essa e outras questões?

02. Como escreveu Lloyd-Jones:

 

Deus proíba que qualquer de nós contemple a santa lei de Deus e se sinta satisfeito consigo mesmo. Se não nos sentirmos impuros neste momento, que Deus tenha misericórdia de nós. Se for concebível ficarmos satisfeitos com a nossa própria vida, por jamais termos cometido um ato de adultério, ou de homicídio, ou de qualquer desses outros pecados, então assevero que não conhecemos a nós mesmos e nem a negridão e imundícia de nossos próprios corações. Pelo contrário, precisamos dar ouvidos ao ensino de Bendito Filho de Deus e examinarmos a nós mesmos, perscrutando os nossos próprios pensamentos, desejos e imaginação. E, a menos que sintamos que somos vis e imundos, carentes de lavagem e purificação, a menos que nos sintamos totalmente falidos, numa terrível pobreza de espírito, e a menos que tenhamos fome e sede de justiça, então, que Deus tenha misericórdia de nós.

 

03. Somente quando assim entendermos acerca do pecado; somente quando assim entendermos o quão grave é pecado é que compreenderemos o evangelho. Somente neste ponto compreenderemos a razão da necessidade de Deus enviar Seu Filho Jesus, imaculado, puro e perfeitamente Santo para, pelo seu precioso sangue nos lavar de nossos pecados e nos livrar da condenação da lei.

04. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

05. Amém!

 

Pr. Walmir

 

Muqui – Dezembro de 2012



[1] Mulher de Urias, o heteu. O rei Davi pecou com ela e, depois da morte de Urias, casou com ela. Foi a mãe de Salomão.

[2] Que Deus me livre da atitude farisaica que diz “eu não sou como os demais homens...”

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