sexta-feira, 28 de junho de 2013

Estudos no Sermão do Monte / parte 25 - Como Orar


COMO ORAR

 

Estudos no Sermão do Monte – parte 25

Estudos sendo aplicados na Igreja Batista em Muqui

Livro base para estes estudos: Estudos No Sermão do Monte, de Martyn Lloyd-Jones

Outras fontes usadas: Sermões de John Wesley; o Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, de R. N. Champlin e outros escritos...

 

Mateus 6.5-15

 

01. Já tivemos ocasião em estudo anterior, analisando a primeira ilustração fornecida por Jesus nesta seção, a das esmolas, de ver que está óbvio no texto o que é certo e o que é errado quando vamos contribuir com alguém, sendo errado “trombetear”, isto é, chamar a atenção para nós mesmos, para sermos louvados / elogiados, e certo NÃO “trombetear”, isto é, NÃO chamar a atenção para nós mesmos a fim de sermos louvados / elogiados, e fazermos tudo com a intenção de que Deus, e somente Deus, seja glorificado.

02. Também vimos que há algo que não está tão óbvio, mas que também pode e deve fazer parte de nossas considerações e entendimento acerca deste assunto, sendo este algo o fato de que este “trombetear” em busca de glória não deve não ser feito não apenas para os outros como também para nós mesmos. Não devemos nos gloriar diante dos outros e nem mesmo diante de nós mesmos. Toda a vanglória, toda presunção deve ser extirpada de nosso coração. Em nosso coração deve haver lugar apenas para a glória de Deus.

03. Bem, o mesmo pode ser dito sobre a ilustração da oração que agora temos diante de nós, não nos cabendo ficar repetindo, apesar de a repetição ser uma excelente forma de aprendizagem. Então, já sabendo que nada, incluindo a oração, devemos fazer com o intuito de “aparecer”, concentremo-nos em outros “detalhes”.

 

I. Primeiro “detalhe” – Ao dizer “entra em teu aposento/quarto e ora em secreto”, Jesus não está a condenar a oração feita em público.

 

01. É importante enfatizar isso porque alguns podem ter essa falsa impressão ao ponto de pensarem ser errado se fazer reuniões de oração, como o nosso culto de quarta-feira, por exemplo. E quem sabe até haja quem não participe das reuniões de oração de sua igreja justamente por ter essa falsa noção?!

02. Porém, se assim o fosse, não teríamos no Novo Testamento o registro da existência do que podemos chamar de “cultos de oração”.

a.    Em Atos 1.14 lemos sobre os discípulos e as mulheres, juntos, perseverando em orações e súplicas;

b.    Em Atos 3.1 vemos Pedro e João subindo ao templo à hora da oração;

c.     Em Atos 12.5 vemos a igreja reunida em constante oração por Pedro;

03. Entrar no aposento e orar em secreto é o entendimento literal, e não é errado, mas não desautoriza a oração em público, com a observação de que a oração em público não deve ser feita com o intuito de atrair a admiração dos outros.

04. Há um “entendimento necessário” nesta instrução de Jesus que também precisamos captar e sempre lembrar, que é o entendimento de que quando vamos orar, seja onde for, em secreto ou em público, estamos nos aproximando de Deus para falar com Deus, e não deve haver lugar para o exercício de uma autoexibição presunçosa.

a.    É preciso “deixar de fora” as outras pessoas e em certo sentido até o nosso próprio “eu”.

b.    É preciso “entrar” com percepção de quem e do que Deus é. Nas palavras de Lloyd-Jones, deveríamos dizer para nós mesmos:

 

Agora estou entrando no salão do trono de Deus, o Todo-Poderoso, o Absoluto, o Grande e Eterno Deus que brande todo poder, força e majestade, aquele Deus que é fogo consumidor, aquele Deus que é luz e em quem não há treva nenhuma, aquele Deus total e absolutamente Santo.

 

c.    E também deve haver a percepção de que esse Deus é “nosso pai celestial” e que o relacionamento que temos e vamos ter com Ele é aquele relacionamento entre Pai e filho.

d.    E, além disso, será bom termos a firme convicção de que esse Deus, como disse Paulo aos Efésios 3.20, “... é poderoso para fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos...”

05. A condenação de Jesus não é, então, necessariamente, ao local, mas à atitude na oração.

 

II. Segundo “detalhe” – quando Jesus disse para não usar de vãs repetições e apontou o fato de que havia alguns que pensavam que por muito falar seriam ouvidos, ele não estava condenando a extensão de nossas orações e nem mesmo condenando todo e qualquer ato de repetir um pedido em oração.

 

01. Primeiro pensemos na questão da extensão das orações.

02. O quão “longa” deve ser nossa oração? Alguns há que se preocupam com isso, então façamos algumas pequenas considerações...

a.    Com respeito às nossas orações públicas, partindo do pressuposto do bom senso, apesar do que já dissemos sobre “onde estamos” quando oramos e de que outras pessoas devem ser “deixadas fora”, e apesar de que poderíamos acrescentar que a preocupação com o tempo também deve ficar fora, elas (as orações públicas) devem ser bem objetivas e não longas demais, a não ser em alguns casos e ocasiões especiais, levando-se em conta alguns fatores como: direção do Espírito, fervor, números de pedidos pelos quais se está orando, etc.

                                  i.    OBSERVAÇÃO: A mim me parece que, por alguma razão, nós desenvolvemos a ideia de que quando alguém nos pede para orar será vergonha orar “muito pouquinho”, e daí o dirigente de um culto público me pede para orar por UM motivo e eu, preocupado com essa questão, oro pelo motivo e acrescento uns dez outros motivos mais. Tudo bem que nesse caso eu orei por uns onze motivos e essa, não a repetição, foi a razão de a oração ter se tornado mais longa. Entretanto, eu posso ter orado por esses outros motivos além do que me foi pedido não motivado pela necessidade das pessoas por quem orei e nem sob a direção do Espírito Santo, mas simplesmente pela preocupação de que os outros me critiquem por “orar pouquinho”. (Citando um exemplo meu, às vezes as pessoas riem de mim quando oro em público antes de uma refeição, e dizem que eu devo estar com muita fome. Sei que fazem isso carinhosamente, mas não deixa de ser um exemplo de como em nossa mente se desenvolveu essa ideia...)

b.    E com respeito às nossas orações particulares?

                                  i.    Bem, com respeito a estas orações penso que o melhor comportamento é o de nem lembrar que existe tempo. Daí você pode orar por um minuto, ou dez, ou uma hora ou até por uma noite inteira.

03. O que aí se reprova não é simplesmente a extensão em si, como não se reprovaria a brevidade de nossas orações; o que se reprova é a extensão sem significação.

04. E com respeito às repetições, também não se condena aí toda e qualquer repetição de um pedido, mas a repetição vã como aquelas de certas rezas, mantras, ladainhas sem qualquer convicção... Ora, Jesus orou três vezes pela mesma coisa; Paulo orou três vezes pedindo a retirada de um “espinho na carne”; Paulo pedia às igrejas que orassem por ele para que lhe fosse dada, no abrir de sua boca, a Palavra com poder... quantos irmãos e quantas vezes esses irmãos devem ter se lembrado desse pedido de Paulo em suas orações?!

05. Então não se trata de se estar ou não repetindo um pedido ou de ser a oração “longa” ou “curta”, mas de ser vã; especialmente vã no sentido de ser feita “para sermos vistos pelos homens”.

 

III. Terceiro “detalhe” – um detalhe a observar especialmente quando formos praticar a “oração secreta”, e que assim podemos enunciar: quando formos orar, será bom que os primeiros instantes sejam instantes de silêncio para meditarmos sobre o que vamos fazer / com quem vamos falar / a quem vamos invocar.

 

01. O que é orar?

02. Se você responder que orar é “falar com Deus”, você estará certo; porém, quem é esse Deus com que vamos falar?

a.    Esse Deus é O Deus que é Onipotente,

                                  i.    é o Deus que pode, conforme se expressava Tozer, fazer qualquer coisa difícil com a mesma facilidade com que realiza as coisas mais simples;

                                ii.    é o Deus que tem em Suas mãos todo o poder do universo;

                               iii.    é o Deus cujos atos, todos eles, são feitos sem esforço, haja vista a criação conforme relatada em Gênesis;

                               iv.     é o Deus que não desgasta a Sua energia e nem precisa recuperar forças;

                                v.    é o Deus que não precisa buscar fora de Si mesmo uma renovação de poder, porque todo o poder está plenamente contido dentro do Seu próprio ser infinito;

b.    Esse Deus é o Deus que é santo, puro,

                                  i.    não “um pouco” puro

                                ii.    e nem mesmo “muito” puro,

                               iii.    mas absolutamente, desmedidamente, infinitamente puro, de uma forma tal que nem pode ser mais puro do que é;

c.    Esse Deus

                                  i.    é o Deus que é autoexistente,

                                ii.    é o Deus que é autossuficiente,

                               iii.    é o Deus que é Eterno,

                               iv.    é o Deus que é Infinito,

                                v.    é o Deus que é Onisciente,

                               vi.    é o Deus que é Onipresente,

                              vii.    é o Deus de quem são os alicerces da terra, e que assentou sobre eles o mundo;

                            viii.    é o Deus que é capaz de fazer por nós infinitamente mais do que pedimos ou pensamos,

                               ix.    Muitas outras coisas maravilhosas mais...

b.    Mas esse Deus é também “o nosso Pai celestial”, “o Pai nosso que está nos céus”, o Pai daqueles que são os bem-aventurados conforme as bem-aventuranças apresentadas por Jesus no início deste Sermão da Montanha.

03. Assim devemos iniciar nossas orações, nos lembrando / levando em conta, antes de qualquer coisa, que estamos nos aproximando do Deus Todo-Poderoso, diante de quem devemos temer e tremer, mas também nos lembrando de que em Cristo Jesus esse Deus se tornou o Nosso Pai Celestial.

04. E isso nos leva a outro detalhe, o quarto:

 

IV. Quarto “detalhe”: sendo Deus quem é, nossos desejos e petições referentes a Ele devem vir em primeiro lugar, se não necessariamente numa oração propriamente dita (nem sempre observamos essa estrutura quando oramos), necessariamente em nossos corações. E numa oração “em secreto”, é bom que essa “estrutura” seja observada, obviamente que de forma natural e não mecânica ou forçada.

 

01. Esse “detalhe” o vemos pela sequência da oração modelo.

a.    Primeiro vem a invocação: “Pai nosso que estás nos céus”;

b.    Depois vem as petições, e as primeiras, as três primeiras, dizem respeito a Deus e à Sua glória. São elas: “santificado seja o Teu nome”, “Venha o Teu reino” e “seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”.

02. Aprendamos o seguinte: a glória de Deus sempre, sempre, sempre deve ser nosso objetivo primeiro, sem importar quais sejam os nossos desejos e/ou circunstâncias pessoais. Como bem se expressou Lloyd-Jones:

 

Antes de começarmos a pensar em nós mesmos e em nossas próprias necessidades, antes de nossa preocupação com o próximo, devemos começar nossas orações por esse grande interesse acerca do Senhor Deus, de Sua honra, de Sua glória... Se ao menos iniciássemos as nossas orações com esse real senso de invocação a Deus; se ao menos nos lembrássemos de que estamos na presença mesma do Senhor; se ao menos nos lembrássemos que o Deus eterno e Todo poderoso está ali, contemplando-nos como nosso Pai, mais bem disposto a abençoar-nos do que nós estamos dispostos a sermos abençoados, e também a cercar-nos com o Seu amor, então obteríamos muito mais da parte daqueles momentos de tomada de consciência ou lembrança do que todas as nossas orações juntas são capazes de obter sem essa percepção. Oxalá todos tivéssemos esse profundo interesse por Deus, por Sua honra e glória!

 

03. Conscientes disso vejamos agora em separado sobre os três pedidos que vemos aqui na oração modelo que devemos fazer e que dizem respeito a Deus e à Sua glória:

a.    O primeiro pedido é “santificado seja o Teu nome” – “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu nome – O que isso quer dizer?

                                  i.    “Santificado”, como é óbvio, aponta para o desejo de que “algo” ou “alguém” seja considerado santo.

                                ii.    “Nome” aqui aponta para o próprio Deus. À luz especialmente do Antigo Testamento aprendemos que “o nome” significa, conforme bem se expressa Lloyd-Jones, “tudo que está envolvido na pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a respeito de Deus. Significa Deus em todos os Seus atributos; Deus em tudo quanto Ele é em Si mesmo; Deus em tudo quanto Ele tem realizado e continua realizando”.

                               iii.    No antigo Testamento encontramos Deus se revelando ao seu povo utilizando-se de diversos nomes, e em cada nome utilizado Deus está revelando algo do Seu poder. Assim é que Ele é:

·         Yaweh (ou Jeová) = “auto existente” / “sou o que sou”, o eternamente auto existente;

·         Jeová Jiré = o Senhor que provê;

·         Jeová Rapha = o Senhor que cura;

·         Jeová Nissi = o Senhor é nossa bandeira;

·         Jeová Shalon = o Senhor é a nossa paz;

·         Jeová Raah = o Senhor é o nosso pastor;

·         Jeová Tsidkenu = o Senhor é a nossa justiça;

·         Jeová Shammah = o Senhor está presente.

Deus, com esses nomes, está revelando certas facetas de Sua pessoa, certos aspectos de Sua natureza, caráter, atributos, e, em certo sentido, em “o teu nome” está envolvido tudo isso e Jesus está a nos ensinar a orar antes de tudo para que a humanidade inteira venha a conhecer e honrar a Deus dessa maneira, e isso envolve um desejo profundo e ardente de que Deus seja honrado e glorificado, por assim ser conhecido e reconhecido.

                               iv.    Então, essa primeira petição “aponta para um ardente desejo para que o mundo inteiro se prostre diante de Deus em adoração à Sua pessoa, em reverência, em louvor, em honra prestada e em ação de graças... Nosso senhor, por assim dizer, instrui-nos a que, quando nos aproximarmos de Deus, embora estejamos debaixo de condições e circunstâncias desesperadoras, embora tenhamos alguma grave preocupação em nossa mente e coração, ainda assim, conforme ele disse, deveríamos parar por alguns instantes para relembrarmos quem Deus é, a fim de que nosso mais profundo desejo seja que esse admirável Deus, que se tornou nosso Pai celeste, através de Jesus Cristo, venha a ser honrado, venha a ser adorado, venha a ser magnificado entre os homens”. (Lloyd-Jones)

b.    O segundo pedido é “venha o Teu reino” – “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu nome, venha o Teu reino – O que isso quer dizer?

                                  i.    Isso quer dizer que em nosso coração deve haver um profundo anelo para que o reino/reinado de Deus seja estabelecido de forma completa e definitiva.

·         Sabemos que de certa forma esse reinado já veio quando Jesus Cristo esteve entre os homens. Ele mesmo declarou: “Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, a vós é chegado o Reino de Deus.” (Lucas 11:20 RC). E não era pelo dedo de Deus que Jesus expulsava os demônios? Então é como se ele estivesse dizendo que o reino de Deus já havia chegado e que ele estava exercendo a soberania.

·         Sabemos que o reino de Deus está aqui, presente na igreja, presente nos corações de todos quantos se submetem a Jesus. Cristo reina em tais pessoas.

·         Porém, sabemos também que ainda está para chegar aquele dia em que o reinado de Deus será estabelecido de forma completa sobre a face da terra, e é por esse dia que temos que anelar e orar, a fim de que o nome de Deus seja glorificado e magnificado acima de tudo.

c.    E o terceiro é “seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”, e dispensa maiores explicações.

04. Assim deve ser o começo de nossas orações, especialmente as feitas “em secreto”. Esses são os anelos primeiros e mais importantes que devem estar em nossos corações. Esses são os pedidos mais importantes, pois visam a glória de Deus, e a glória de Deus sempre, sempre, sempre deve ser nosso objetivo primeiro, sem importar quais sejam os nossos desejos e/ou circunstâncias pessoais.

05. E, finalmente, chegamos ao quinto, último e óbvio “detalhe”:

 

V. Quinto e óbvio “detalhe” depois de tudo que já dissemos: só depois de fazermos petições buscando a glória de Deus é que devemos fazer petições por nós mesmos.

 

01. E são três as petições apresentadas por Jesus, mas são petições que contemplam todos os aspectos da vida humana: nossas necessidades físicas, nossas necessidades mentais e nossas necessidades espirituais. Vamos pensar em cada uma delas em separado.

a.    Primeira petição: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” – devemos pedir pelas nossas necessidades físicas. E alguns entendem que devemos pedir apenas o suficiente para cada dia, a provisão para cada dia. Mas isso não é tão importante quanto alguns outros fatos que podemos aqui enxergar e destacar:

                                  i.    Primeiro fato: O Deus que é o Criador e Sustentador do universo, o Deus que está formando o Seu reino eterno e que haverá de inaugurá-lo no fim dos tempos, o Deus para quem as nações são com um grão de pó na balança, esse Deus se importa com as nossas mais íntimas e ínfimas necessidades.

                                ii.    Segundo fato: no que respeita a essa petição, o que Jesus ensina é que devemos orar pelas nossas necessidades reais e não por artigos de luxo ou a superabundância. Talvez melhor dizendo, o que nos é prometido da parte de Deus e, portanto, garantido, são aquelas coisas que fazem parte de nossas necessidades reais.

                               iii.    Terceiro fato: Se Deus, como é dito no verso 8, sabe antes mesmo de pedirmos o que necessitamos, então por que pedir? Então parece que Deus, na qualidade de nosso Pai, gosta que conversemos com Ele. Loyd-Jones assim se expressou:

 

Sem dúvida é bastante admirável que Deus aprecie que nos aproximemos dele para conversar. O Deus que é o autoexistente, o grande Yaweh, o Deus que não depende de ninguém, que é vivo de eternidade a eternidade, que existe por Si mesmo independentemente de quem quer que seja – é isso que nos admira – gosta que nos acheguemos a Ele, gosta de ouvir-nos porque somos Seus filhos. O Deus que criou os céus e a terra, que prescreveu às estrelas os seus cursos, gosta de ouvir as nossas orações sussurradas, gosta de dar ouvidos às nossas petições. Mas as coisas são assim porque Deus é amor; e esse é o motivo pelo qual, embora conheça todas as nossas necessidades, sente um grande prazer quando assim confiamos, quando nos vê achegando-nos a Ele, pedindo-Lhe o sustento diário.

 

                               iv.    Quarto fato: Somos inteiramente dependentes de Deus, reconheçamos isso ou não. Para citar um só exemplo: e se Deus “cerrasse as comportas do céu” de forma que não houvesse mais chuva sobre a face da terra, o que seria de nós? Nossa vida está inteiramente nas mãos de Deus, creiamos nisso ou não, de forma que é algo muito normal e necessário pedir a Ele pela provisão diária daquilo que necessitamos, apesar de todo o conhecimento que temos, inclusive sobre as leis naturais, e de toda a tecnologia que desenvolvemos para a produção daquilo que necessitamos. Quando Deus enviou pragas sobre o Egito eles ficaram em apuros; quando Deus enviou o dilúvio só sobraram Noé e sua família; quando Deus reteve a chuva (vemos isso algumas vezes no A. T.) houve fome na terra... Dependemos de Deus, creiamos/queiramos/aceitemos ou não.

b.    Segunda petição: “perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Encontramos aqui pelo menos duas dificuldades principais:

                                  i.    Primeira dificuldade: Há pessoas que são da opinião de que essa oração não é para os crentes porque não há necessidade alguma de um crente pedir perdão a Deus. Essas pessoas estão divididas em dois grupos, sendo o primeiro grupo o daquelas que assim pensam com base no fato de que somos justificados pela fé, e, se a justificação pela fé significa que Deus na pessoa de Jesus Cristo cuidou plenamente de nossos pecados, incluindo aqueles que ainda vamos cometer, que necessidade há de pedirmos perdão? Deus, em Cristo, já nos declarou justificados, e se assim o é, que necessidade há de pedirmos perdão? E o segundo grupo é o grupo que diz que uma vez acontecido o novo nascimento o crente não peca mais, e se não peca mais, então não há necessidade de pedir perdão.

1.    Bem, quanto ao pensamento do segundo grupo, de que uma vez nascido de novo não se peca mais (aquilo que a gente pensa que é pecado não o é, sendo talvez um “erro” e não “pecado”), talvez assim pensem por causa de, dentre outros textos, 1 João 3 que diz, dentre outras coisas, que aquele que permanece em Cristo não peca e que qualquer que é nascido de Deus não comete pecado. Talvez haja nesse caso um erro de entendimento. Se João vinha dizendo, desde o capítulo 1, que não podemos dizer que não temos pecado porque se isso fizermos estamos enganando a nós mesmos e chamando Deus de mentiroso, e que é bom que não pequemos, mas se pecarmos temos um advogado junto ao Pai, sendo esse advogado Jesus Cristo, como entender o que ele diz no capítulo 3? Ora, não é muito difícil de entender, e já faz um bom tempo que estudiosos das línguas originais nos deram a resposta: a forma como João se expressa, no original dá a ideia de uma ação contínua, ficando então subentendido o hábito do pecado, o pecado como ato contínuo, podendo ser traduzido, então, por “não vive pecando” e “não vive na prática do pecado”. Isso é gramaticalmente correto, combina com o contexto imediato e combina com a mensagem neotestamentária como um todo.

2.    Quanto ao pensamento do primeiro grupo, de que uma vez justificados e diante do fato de que a justificação contempla passado, presente e futuro, não há mais necessidade de se pedir perdão, a resposta também não é muito difícil de se dar. Jesus não está falando aqui de justificação. Veja o comentário de Lloyd-Jones a respeito:

 

... não é isso que temos aqui. O que temos aqui, pelo contrário, é aquilo que também encontramos em João 13. Você deve estar lembrado de que quando Ele lavou os pés dos discípulos, Pedro lhe disse: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as minhas mãos e a cabeça”. A isso, entretanto, Jesus retrucou: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais está todo limpo”. Só há uma lavagem da pessoa inteira – por ocasião da justificação. Entretanto, uma vez justificados, enquanto caminhamos por este mundo ficamos sujos e maculados pelo pecado. Isso acontece com cada crente...

 

Justificados já fomos, mas “nossos pés ainda correm o risco de se sujarem enquanto caminhamos por este mundo” (e sabemos que constantemente eles estão sujos).

E é válida aqui também a palavra de João em sua primeira carta, já citada, que demonstra que somos sujeitos a pecar e que por isso mesmo temos um “advogado” a quem recorrer.

 

                                ii.    Segunda dificuldade: a questão do perdão. Pode o perdão de Deus dispensado a nós ser condicionado a se temos ou não disposição de perdoar aos outros? Pode, uma pessoa que se arrependeu e creu em Jesus, se converteu, nasceu de novo, ser perdida (porque se Deus não perdoa subentende-se que está perdida..) porque não perdoou alguém? Será o perdão de Deus assim condicional? Eu creio que não. Se a salvação é pela graça, e graça é favor imerecido, então “não temos que” e “não há como” merecê-la por algo que fizermos, como por exemplo a disposição de perdoar. Mas, se não, como entender então: “perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores” e depois: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6:14-15 RC)?

 

Prestem bem atenção irmão porque temos algo bem sério aqui. A primeira frase de Jesus não traz dificuldade, porquanto não diz “perdoa porque, mas “perdoa como. Mas a segunda é preciso ser bem entendida, e com base no contexto neotestamentário como um todo, só há uma forma de se entender, que pode ser dita de mais que uma maneira para ser melhor compreendida. Deixe-me tentar transmitir para os irmãos:

1.    A disposição de perdoar, assim como algumas outras virtudes, é parte integrante da nova natureza do indivíduo que foi verdadeiramente regenerado. Ninguém que tenha recebido o perdão de Deus, tornando-se nova criatura, pode deixar de perdoar os outros. E eu digo “não pode” no sentido de “não conseguir” e não no de “não ter autorização e perdoar simplesmente por ser uma lei”, porque a atitude perdoadora faz parte da experiência da regeneração. Não pode dizer que já foi perdoado, que já foi regenerado, quem não tem disposição natural/espiritual para o perdão.

2.    A disposição de perdoar não é uma “condição” e sim uma espécie de “demonstrativo”, de “prova” – em ela existindo em nós temos aí um “demonstrativo” uma “prova” de que “podemos ter sido” perdoados por Deus. Por outro lado, e aqui está a gravidade da questão, se não há essa disposição natural/espiritual em nosso coração, isso demonstra que ainda não fomos perdoados, que ainda permanecemos não regenerados, perdidos, portanto.

 

Irmão, irmãos, queridos e amados irmãos, não ignoremos o fato de que há possibilidade de haver pessoas na igreja, entre nós, que ainda não tenham sido verdadeiramente salvas. No final do capítulo 7 de Mateus vamos ver Jesus dizendo acerca de muitas pessoas que, naquele Dia, perdidas, quererão se desculpar narrando coisas que fizeram em nome de Jesus, mas que ouvirão: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós os que praticais a iniquidade”. Onde estão estas pessoas hoje? Nas igrejas! A “luz” que nelas há não é verdadeira luz; vivem num autoengano pensando que por causa de algumas coisas que não uma real conversão, uma real experiência de regeneração, um genuíno novo nascimento, uma verdadeira e completa entrega da vida a Jesus, serão salvas. Essa “luz”, diz Jesus aqui mesmo no capítulo 6, é uma imensa treva. Meu irmão, você vive na luz ou a luz que em ti há são trevas? Você vive na luz ou vive nesse autoengano? Ah! Meu irmão! Não há salvação fora de Cristo! Se você não está em Cristo você está perdido! Se você está em Cristo você está salvo! E se você está em Cristo e salvo há alguns frutos comprobatórios dessa regeneração/salvação, sendo um deles a disposição de perdoar. Não uma disposição forçada, como que querendo “fazer para receber”, mas uma disposição espiritual/natural característica de quem recebeu e tem imenso prazer em compartilhar daquilo que recebeu, no caso em questão, o perdão.

 

O recebimento do perdão de Deus, comprovado por frutos como essa disposição em perdoar, guarda a nossa mente, traz tranquilidade/serenidade ao nosso coração.

 

c.    Vamos à terceira petição, a que contempla nossas necessidades espirituais enquanto peregrinamos por este mundo: “não nos induzas (ou deixe cair) em tentação, mas livra-nos do mal”.

                                  i.    Qual a razão para esta petição? Qual é a grande razão, o grande porquê? Por que pedir para Deus livrar-nos do mal?

                                ii.    Talvez alguém responda que é porque somos orientados a que sejamos santos e isso implica em sermos livres do mal.

                               iii.    Pode ser esta uma boa resposta, mas não contempla o âmago da questão, cabendo-nos ainda perguntar, para chegar ao grande porque, qual a razão principal para sermos santos. Qual é a razão principal para sermos santos? Qual é a maior necessidade espiritual que temos?

                               iv.    Eu diria aos irmãos que a santificação, podemos assim dizer sem nenhuma diminuição de sua importância, “nada mais é”, nesse caso, do que o “meio”, o “ambiente” em que acontece esse grande “porque”, que é a nossa comunhão com Deus.

                                v.    A nossa comunhão com Deus é a grande razão, é a nossa maior necessidade, e devemos pedir que Deus nos livre do mal para que essa comunhão jamais venha a ser interrompida. “O nosso desejo supremo deveria ser o de termos sempre uma correta relação com Deus, conhecendo-O e desfrutando companheirismo e comunhão ininterruptos comEle”. (Lloyd-Jones)

 

Meus irmãos, jamais nos deixemos enganar pelo inimigo de nossas almas, pensando de nós mesmos que estamos espiritualmente bem porque estamos vindo à igreja, ou porque somos pessoas que leem a Bíblia, ou porque somos pessoas que oram, ou porque somos pessoas que colaboram financeiramente com a igreja, ou porque somos pessoas dedicadas trabalhando nos diversos ministérios da igreja, ou porque combatemos a horripilante idolatria inclusive não participando de festejos idólatras, ou porque somos os melhores e mais dedicados evangelistas e/ou pregadores do mundo e já ganhamos centenas de pessoas para Cristo... NÃO! Tudo isso e muito mais é importante! Extremamente importante! Dedique-se a essas e outras coisas mais! Mas essas “coisas” são apenas “sinais” de que estamos bem, porque nós só estamos bem de verdade quando estamos em uma correta relação com Deus desfrutando de companheirismo e comunhão com Ele, e é por isso que precisamos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação e que nos livre do mal – do mal advindo da hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais, do mal advindo da sedução promovida pelo mundo e do mal de nossa própria carne.

 

Então, quando alguém insinuar que você não faz determinada coisa, não age de determinada forma porque sua igreja não o permite você poderá lhe dizer que tem e não tem a ver com a igreja. Tem porque a igreja realmente tem esse zelo, mas não tem porque esta não é a sua razão; a sua razão é que você não quer que sua comunhão com Deus, com o seu Pai Celestial, seja interrompida por coisas tão pequenas, coisas tão vis e desprezíveis, e por isso você tem orado pedindo a Deus que o livre de cair em tentação, que o livre do mal. Esta é a razão!

02. Talvez seja bom pararmos um pouco aqui, antes de encerrarmos, e orarmos, clamarmos pela misericórdia do Senhor sobre nossas vidas...

 

VI. Sexto e último “detalhe”: o postscript “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.”

 

01. Independentemente das controvérsias sobre se estas palavras foram ou não realmente proferidas por Jesus, elas são verdadeiras e bem apropriadas. Tratam-se de uma majestosa expressão de louvor a Deus.

02. Além disso são palavras que podem nos levar a profunda reflexão. Pensemos, por exemplo, em contexto menor, o contexto da igreja, em nossas atitudes como igreja e na igreja:

a.    A quem pertence o “reinado” na igreja?

b.    A quem pertence o poder com que a igreja age no mundo?

c.    A quem deve, então, pertencer a glória?

 

Conclusão.

 

01. Como orar?

a.    Ore com a motivação correta, e não “para ser visto pelos homens”

b.    Pense bem, antes mesmo de falar qualquer coisa, sobre o que você vai fazer, com quem você vai falar, a quem você vai invocar – o Deus Todo-Poderoso diante de quem devemos também temer e tremer, mas que ao mesmo tempo é Nosso Pai Celestial, o que possibilita, além da reverência, do temor e tremor devidos, haver tranquilidade e até ousadia em nossos corações.

c.    Ore primeiro pelas coisas referentes a Deus: que o nome dele seja santificado, que o reinado Dele seja concretizado e que a vontade Dele seja feita em todo o Universo – lembrando de que não tem sentido orar por isso se você não estiver pensando em que estas coisas devem acontecer principalmente em sua vida.

d.    Depois ore por você mesmo, para que suas necessidades físicas sejam supridas; para que você seja realmente um regenerado e tenha convicção disso podendo ver frutos dessa regeneração em sua vida, como a facilidade em perdoar; e para que você seja livre do mal para que sua comunhão com seu Pai Celestial não seja interrompida.

e.    E termine com uma expressão de louvor a Deus.

 

Que a bênção do Senhor esteja sobre nós.

Pr. Walmir Vigo Gonçalves - IBMuqui



Referência principal:

Estudos no Sermão do Monte – Martyn Loyd-Jones – Editora Fiel

 

Outras fontes usadas:

Sermões de John Wesley;

O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, de R. N. Champlin.

 

 

Muqui – Junho de 2013