domingo, 28 de abril de 2013

Estudos no Sermão do Monte / parte 22 - Amai… Até os vossos inimigos

 

AMAI... ATÉ OS VOSSOS INIMIGOS

 

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus. (Mateus 5:43-48 RC)

 

01. O amor é uma virtude muito poderosa, a mais poderosa de todas. Paulo, em 1 Coríntios 13, diz que sem ele, ainda que a pessoa possua uma série de outras qualidades (dons), ela nada seria.

02. Platão, em “Banquete”, diz, sobre o amor, que ele supre bondade e bane a maldade; que ele oferece amizade e perdoa a inimizade; que ele é a alegria do bondoso e a maravilha do sábio; que em cada palavra, trabalho, desejo, temor, ele é o piloto, o camarada, o ajudador, o melhor e mais brilhante orientador, em cujos passos deve seguir todo homem.

03. Alguns provérbios italianos dizem sobre o poder do amor:

a.    “O amor governa sem a lei”

b.    “O amor governa o seu reino sem a espada”

c.    “O amor é o senhor de todas as artes”

04. Li em determinado lugar uma belíssima história sobre o poder do amor:

 

Um homem contou a história de que ele foi, certa vez, conselheiro em um acampamento de igreja que abrigava meninos pequenos. Um dos meninos que estava no acampamento tinha sido vítima de paralisia cerebral, e os outros meninos se divertiam com ele, imitando os seus gestos descontrolados e, de maneira geral, tornando a vida dele uma miséria. Um dos meninos deveria fazer um breve sermão na última noite do acampamento, e os colegas resolveram que o candidato certo para o trabalho era o menino com paralisia cerebral. Eles se divertiriam enquanto ele lutasse por expressar-se. Portanto, o pobre menino seria a “diversão”, o “espetáculo” daquela noite. Os risos já se tinham espalhado por toda a jovem audiência quando o menino subiu ao púlpito. Ele conseguiu gaguejar o seu sermão bem simples dizendo que tinha três coisas para compartilhar com os outros: 1) A Primeira é que ele sabia que Deus o amava; 2) A Segunda era que ele sabia que Deus amava a todos eles; 3) Portanto, a Terceira coisa, segundo ele assegurou aos outros meninos, era que ele próprio os amava. Toda a audiência prorrompeu em lágrimas e vidas foram transformadas naquela noite. Por quê? É porque o amor estava presente... E nos anos que se passaram, vários dos meninos que tinham estado naquele acampamento confessaram que, pela primeira vez, naquela noite, sentiram a presença de Jesus, e muitos se consagraram ao serviço cristão.

 

05. Jesus, no presente texto bíblico de nossos estudos no Sermão do Monte, apresenta-nos a última de suas seis “ilustrações” para explicar e aclarar o Seu ensino concernente ao significado da Lei de Deus em contraste com a pervertida interpretação feita pelos escribas e fariseus.

06. Relembremos as cinco “ilustrações” anteriores:

a.    Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.  Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno...

b.    Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.  Eu porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela...

c.    Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, que lhe dê carta de desquite.  Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério; e qualquer que casar com a repudiada comete adultério. 

d.    Ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor.  Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis

e.    Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente.  Eu, porém, vos digo que não resistais ao perverso...

07. E nesta última ilustração, que temos diante de nós, Jesus vai mostrar que a Lei de Deus nos ensina a amar, e amar até, diferentemente da interpretação e ensino dos escribas e fariseus, os nossos inimigos.

08. Comecemos por observar a interpretação e o consequente ensinamento dos escribas e fariseus:

 

AMAR AO PRÓXIMO E ABORRECER O INIMIGO.

 

09. Esse era o ensino dos escribas e fariseus. Mas,

a.    de onde eles tiraram essa ideia?

b.    Como eles chegaram a essa interpretação?

c.    Onde, na “Lei” está escrito isso?

10. Em lugar nenhum da “Lei de Deus” / “legislação Mosaica” está escrito isso. Entretanto, como a lei que diz “amarás a teu próximo” vem de Levítico 19.18, e ali há alusão específica aos israelitas (“filhos de teu povo”), as autoridades religiosas acrescentaram a outra metade: “odiarás a teu inimigo”. E eles, em geral, realmente praticavam isto, a ponto de alguns romanos os acusarem de detestar a raça humana (odium generis mundi)[1].

 

11. Lloyd-Jones chama a atenção para o fato de que os Judeus consideravam os outros povos como meros cães e, por outro lado, os povos gentílicos desprezavam os judeus, havendo, portanto, entre judeus e gentios o que o apóstolo Paulo denominou em Efésios 2.14 de “parede de separação”, que foi “derrubada” por Cristo, a nossa paz – em Cristo ambos os povos somos um só povo; em Cristo todos os que recebemos a Jesus pela fé, independente de que nação sejamos, nos tornamos cidadãos celestiais, concidadãos dos santos e da família de Deus (Efésios 2).

12. Talvez – considera Lloyd-Jones, sem querer tornar mais suave o erro dos escribas e fariseus – eles tenham encontrado encorajamento para tal atitude, pelo menos em parte, em um mau entendimento acerca do porque de algumas ordens e atitudes da parte do próprio Deus, como por exemplo, a ordem de exterminar os cananeus. Como entender isso? E, indo mais além, como conciliar o amor a todos, até aos inimigos, com a existência de uma punição eterna?

13. Não é muito difícil entender quando não fechamos os olhos para um elemento muitas vezes ignorado: o elemento judicial. O amor de Deus não elimina a Sua justiça. Pensando nisto Lloyd-Jones faz o seguinte comentário explicativo:

 

Enquanto estamos neste mundo e nesta vida, Deus, de fato, faz o Seu sol nascer sobre bons e maus, abençoando pessoas que até O odeiam, e enviando chuvas àqueles que O desafiam. Sim, Deus continua fazendo isso. Ao mesmo tempo, porém, Ele os adverte que, a menos que se arrependam, finalmente estarão na perdição eterna. Portanto, pesados todos os fatores, não há nenhuma contradição. Povos como os moabitas, os amorreus e os midianitas haviam rejeitado deliberadamente as realidades divinas; e Deus, na qualidade de Deus e de eterno e justo Juiz, proferiu juízo contra eles. Faz parte da prerrogativa divina agir assim. Porém, a dificuldade que cercava os fariseus e os escribas era que eles não faziam tal distinção. Tomavam esse princípio judicial e o punham em operação em suas atividades comuns, em suas vidas diárias. Consideravam que isso os justificava do ódio que votavam aos seus inimigos, odiando a qualquer pessoa por quem tivessem aversão, ou a qualquer pessoa que de alguma forma os ofendesse. Desse modo, destruíam deliberadamente o princípio básico da lei de Deus, que é esse grande princípio do amor.[2]

 

14. Resumindo, não há em lugar nenhum da Palavra de Deus e em nenhuma atitude de Deus, base para amarmos só o nosso “próximo” (pensando em próximo como “os nossos”) e não aos nossos inimigos, e muito menos para odiar nossos inimigos. A ordem é AMAR! Amar amigos e até inimigos.

15. A interpretação e o consequente ensino dos escribas e fariseus era, no mínimo, equivocado.

16. Observemos agora o ensinamento de Jesus:

 

AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

 

17. Amar os inimigos! Obviamente não só os inimigos, de forma que podemos dizer “até” os inimigos. Essa é a interpretação de Jesus, e vem acompanhada de exemplos/ilustrações (bendizer... fazer bem... orar...).

18. Notem que temos aqui uma atitude positiva para com nossos inimigos. Um pouco antes Jesus dissera, sobre nossa atitude para com os perversos (inimigos, portanto), que deveria ser uma atitude de NÃO resistência. Mas aqui Jesus vai além e diz que não apenas não devemos resisti-los como devemos amá-los, e, diante disso podemos pensar no seguinte princípio: nossa maneira de tratar as pessoas não deve depender do que elas são ou do que elas têm feito a nós.

19. Não é assim que Deus age? Deus envia chuva e ordena que o sol brilhe não apenas para as pessoas de bem; ele o faz mesmo para as pessoas más e as iníquas. Deus não abençoa somente os esforços dos agricultores crentes... Deus está tratando, no geral, com todas as pessoas não conforme o que elas são ou conforme agem para com Ele, mas conforme o Seu amor, que é completamente desinteressado. Nas palavras de Loyd-Jones,

 

Esse amor não depende de qualquer coisa que em nós exista, pois se manifesta a despeito de nós. “porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Ora, o que levou Deus a agir desse modo? Teria sido alguma coisa amável, amorável ou digna de ser amada em nós ou no mundo? Teria sido algo que estimulou o eterno coração de amor? Nada disso, sob hipótese nenhuma. Tudo se deve exclusivamente às atitudes do próprio Deus, a despeito de nós. O que impeliu Deus foi o Seu próprio eterno coração amoroso, que não se deixa comover por qualquer motivo fora dele mesmo. Esse amor gera seus próprios movimentos e atividades – é um amor totalmente desinteressado.[3]

 

20. Essa é a forma de amor que devemos manifestar pelas pessoas, um amor desinteressado, um amor independente de quem sejam as pessoas e nem do que elas têm feito por nós ou a nós.

21. Falando de outra forma, as nossas atitudes, como servos de Deus, como novas criaturas, pertencentes a um reino diferente, não devem ser governadas por outras pessoas, pelo que elas fazem/dizem/pensam a nosso respeito. Há uma lei que diz que toda ação desencadeia uma reação correspondente. Essa lei, em muitos casos, não deve estar presente em nossas vidas, porquanto passamos a fazer parte de um reino cujas leis são diferentes das leis do reino dos homens.

22. Assim é que, exemplifica Jesus,

a.    Se alguém o maldiz, bendiga, isto é, diante de palavras malditas, reaja com palavras benditas; diante de palavras amargas, reaja com palavras doces; diante de palavras duras e grosseiras reaja com palavras gentis.

b.    Se alguém lhe odeia, faça-lhe o bem, isto é, diante de atos malévolos reaja com atos benévolos; quando alguém se lhe apresentar extremamente desprezador e cruel, não lhe retribua da mesma forma. A regra para o crente é “ações benévolas em favor até dos cruéis”.

c.    Se alguém lhe maltrata e persegue, ore por ele. Peça a Deus misericórdia para essas pessoas; peça a Deus para salvar as almas dessas pessoas. Afinal, foi por isso que Jesus veio a esse mundo, para buscar e salvar os pecadores.

23. Se assim não fizermos, que galardão teremos?

24. Se assim não fizermos, como poderemos dizer que somos filhos de Deus, semelhantes a eles?

 

FONTES:

 

CHAMPLIN, R. N. – O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo – volume 1

 

Lloyd-Jones, Martin – Estudos no Sermão do Monte – Editora Fiel



[1] CHAMPLIN, R. N. – O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo – volume 1

[2] Lloyd-Jones, Martin – Estudos no Sermão do Monte – Editora Fiel

[3] Ibid.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Estudos no Sermão do Monte / parte 21 - Não Resistais ao Perverso 2 – Ilustrações


NÃO RESISTAIS AO PERVERSO – 2

 

- ilustrações -

 

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.” (Mateus 5:38-42 RA)

 

01. No estudo anterior começamos a considerar esse trecho do Sermão da Montanha. Talvez possamos destacar daquele estudo, para a partir daí darmos continuidade, os princípios em que consideramos que “não resistir ao perverso” é para ser aplicado em nossas relações pessoais e não em nossas relações como cidadãos de um país e que tal ensino de Jesus, além de versar sobre a atitude do crente para com uma outra pessoa, versa sobre a atitude do crente para consigo mesmo, demonstrada na “razão por que” contra-ataca quando “ofendido” de alguma forma, sendo esta razão quase sempre o “eu” (o “eu” que foi ferido, o “eu” que foi humilhado, o “eu” que não pode ser defraudado em seus direitos pessoais; o maldito eu que nunca se lembra de que Jesus disse que se alguém quiser ser seu discípulo tem que negar-se a si mesmo, seus “direitos pessoais”, sua própria vida, e tomar a sua cruz e segui-lo)

02. Hoje vamos pensar um pouquinho, dando continuidade, nas ilustrações que Jesus nos apresenta. Vamos a elas:

 

I. Primeira ilustração: voltar a outra face.

 

“... qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra...”

 

01. Que podemos/devemos entender dessas palavras de Jesus?

02. Será que podemos/devemos entender que temos que, literalmente, oferecer àquele que nos bateu em uma face a outra para ele bater também?

03. Conforme já temos observado em nossos estudos, entendemos que não. Não se trata do ato em si, mas do princípio. Nas palavras de Willian Carey Taylor, em “Os Mandamentos de Jesus” (Casa Publicadora Batista, ano 1942),

 

Não são os atos, pois, aqui mencionados que devemos... praticar. Mas é o princípio, o espírito, a têmpera e qualidade de conduta e vida que a linguagem inspira que devemos cultivar.

 

04. Ainda nas palavras de William Carey:

 

Sem cumprir ao pé da letra a ordem de voltar a face esquerda a quem bater na direita, podemos ser admoestados a não ser amantes briosos de rixas e contendas, mas sim prudentes, calmos, pacíficos, dispostos a passar por despercebidas umas tantas provocações...

 

05. Conforme vimos considerando até aqui, Jesus está a nos ensinar que devemos nos desfazer do espírito de retaliação, do desejo de nos defendermos e tirarmos vingança a respeito de qualquer ofensa ou dano que nos tiverem feito a nível pessoal. Qual será a nossa imediata reação instintiva se alguém de repente chegar e nos bater na face? Certamente que será devolver a bofetada. Pois é esta reação e reações semelhantes a estas em casos semelhantes que Jesus quer que combatamos.

06. O levar um tapa no rosto é só um exemplo de que Jesus se utiliza, no caso, de natureza física, insultuoso e humilhante. Mas ele também poderia ter usado exemplos de insultos desferidos contra nós de maneiras diferentes, através de palavras por exemplo. E a intenção de Jesus, conforme nos diz Lloyd-Jones, é que se produza em nós um espírito que não se ofenda facilmente diante de ofensas com estas; e que atinjamos um estado de espírito tal que sejamos indiferentes ao próprio “eu”, à autoestima, ao nosso orgulho pessoal.

 

II. Segunda ilustração: a questão da túnica e da capa.

 

“... ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa...”

 

01. Na primeira ilustração Jesus trata, digamos assim, de nosso orgulho pessoal; e nessa segunda ilustração podemos dizer que Jesus trata do costume que temos de ficar entrando em demandas reivindicando nossos direitos pessoais.

02. Segundo podemos entender das palavras de Jesus, esse não é um bom costume para os cristãos, mesmo quando se trata de nossos direitos legais.

03. A túnica era a roupa interna de um homem, e a capa a sua roupa externa, que lhe servia de cobertor à noite. A túnica podia ser tomada por um credor como fiança, mas a capa, se tomada, deveria ser devolvida antes do anoitecer. Era uma questão de direito legal. Mas se alguém quiser demandar, dê-lhe também a capa, diz Jesus. Segundo Champlin:

 

O ensino de Jesus é que, se alguém quisesse processar a outrem, era melhor que este último não somente o que o primeiro tinha direito, mas até algo de maior valor, contanto que assim fazendo, pudesse evitar o desenvolvimento de um espírito maldoso e egoísta. Também é melhor que o cristão faça assim do que venha a criar um estado de más relações com a outra pessoa, mostrando o mesmo espírito maldoso que ela. É melhor para o crente perder as coisas materiais do que sua boa consciência e integridade. Paulo deu o mesmo conselho: “O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?” (I Cor. 6.7)

 

III. Terceira ilustração: andar a segunda milha.

 

“Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas”

 

01. Segundo Lloyd-Jones,

 

Essa obrigação de caminhar a segunda milha é uma alusão a um costume muito comum no mundo antigo, por meio do qual uma autoridade constituída tinha o direito de determinar a um homem que fizesse um carreto ou transporte. Certa quantidade de bagagem tinha de ser movida de um local para outro, e as autoridades tinham o direito de determinar a um homem qualquer que carregasse essa bagagem daquele local para o próximo. Em seguida, as autoridades valiam-se de um segundo indivíduo para fazer o carreto desse local para um terceiro, e assim por diante. Naturalmente, esse era um direito que assistia especialmente uma nação que conquistara outra, e, naqueles tempos, a palestina havia sido dominada pelos romanos. O exército romano exercia controle sobre as vidas dos judeus, e com frequência os romanos exigiam que os judeus se ocupassem desse tipo de serviço. Um judeu poderia estar ocupado em seus próprios afazeres quando, subitamente, um grupo de soldados romanos poderia aproximar-se dele e dizer: “você precisa levar esta bagagem daqui para tal localidade, pelo espaço de uma milha”. Era isso que nosso Senhor tinha em mente, ao dizer: “se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas”. Que o crente faça além do que lhe for solicitado, percorrendo a segunda milha.

 

02. O que Jesus está ensinando, então? Jesus está ensinando que ao crente compete fazer não menos do que lhe for exigido; pelo contrário, até mais. E mais uma vez Jesus está tratando do nosso orgulho pessoal, do nosso “eu”, porque o nosso “eu” em nada se agrada de uma coisa como essa.

03. Em se tratando de leis governamentais, excluindo-se aquelas que se opõem à “Lei de Deus”, devemos cumpri-las, até além do que elas exigem de nós. Mas não é que à vezes fazemos o contrário? Deixe-me citar uns exemplos:

a.    Exemplo 1: Você infringe a lei de trânsito. Já errou, não é? Daí vem o guarda e lhe diz que tem que multá-lo e a multa é “X” reais, mas que se você lhe der “Y” ele deixa você ir sem multa. O que você faz? Deixa eu dizer o que alguns responderiam a essa questão: “eu dou a propina... o problema é do guarda... ele é que está errado...”. Pois eu quero lhe dizer que se você é um servo de Deus o problema é seu e ainda que o guarda esteja errado mais errado está você.

b.    Exemplo 2: Quando se trata de impostos, se você se encaixa nesse perfil, você procura o contador para que? Para saber quando deve recolher ou para saber como “dar um jeitinho” de recolher menos, ainda que infringindo a lei?

04. Em se tratando de nossa relação, como empregados, com o nosso empregador, devemos ir além do que nos é exigido e não o contrário. Veja o que Pedro diz em 1 Pedro 2.18ss.

 

IV. Quarta ilustração: dar e emprestar.

 

“Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”

 

01. Alguns diriam que temos aqui uma “instrução perigosa”. E de fato ela é; se mal entendida. “Perigosa para os nossos bolsos”.

02. Por isso temos que entendê-la bem.

03. Primeiramente devemos entender que não se trata de simples questão de dar em emprestar literalmente, mecanicamente, só porque “Jesus mandou”. Há novamente um princípio a ser detectado nestas palavras de Jesus. Jesus está ensinando que é totalmente errada aquela atitude que diz “o que é meu é meu e o outro que se vire”.

04. Isso me faz lembrar de três filosofias que dizem mais ou menos assim:

a.    A filosofia do ladrão: O que é meu é meu e o que é seu poderá ser meu se eu resolver levar para mim.

b.    A filosofia do Egoísta (mas não ladrão): O que é seu é seu, mas o que é meu é meu e só meu.

c.    A filosofia do altruísta: O que é seu é seu e o que é meu poderá ser seu se você precisar e eu puder lhe dar.

05. Outra coisa que devemos entender é que Jesus não está aqui ensinando que temos que ajudar dando ou emprestando todas as vezes e a todos indiscriminadamente. Eis algumas situações (que podem vir acompanhadas com exemplos):

a.    Nem sempre temos para ajudar;

b.    Há quem peça e não tenha realmente necessidade – são aproveitadores e alguns até golpistas;

c.    Há aqueles que estão constantemente necessitados cuja necessidade é proveniente de um desregramento irresponsável na administração das finanças;

d.    Há quem tenha necessidade, mas que não irá usar aquilo que você lhe der para a satisfação de sua necessidade (pelo menos não a necessidade de seu lar).

e.    E por aí vai...

06. Não devemos ser egoístas; não devemos ter a atitude daquele que só pensa em si mesmo e nunca está disposto a ajudar quem quer que seja; mas precisamos ser sábios.

 

Concluindo

 

01. Não resistais ao perverso; mas...

a.    a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra;

                                  i.    “olho por olho e dente por dente”, a atitude de “contra-atacar” não é para servos do Senhor Jesus;

                                ii.    Servos do Senhor Jesus devem ser revestidos de um espírito de humildade e mansidão;

                               iii.    Servos do Senhor Jesus não devem ser dominados pelo “eu” e pelo orgulho pessoal...

b.    ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa.

                                  i.    Servos do Senhor Jesus não devem ficar entrando em atrito com ninguém por causa de direitos pessoais. Em muitos casos, conforme somos orientados pelo Apóstolo Paulo, é melhor sofrer o dano, porque só o haver contendas entre nós já é completa derrota.

c.    Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.

                                  i.    Servos do Senhor Jesus devem cumprir suas obrigações até além do que lhes é exigido, sem se ressentir, sem cultivar espírito amargurado.

d.    Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

                                  i.    Servos do Senhor Jesus não devem ser tolos – os tempos são difíceis e há muitos aproveitadores – mas não devem fechar o coração naquela atitude quem agarra o que é seu com todas as forças e não tem disposição para ajudar quem quer que seja.

02. Ao servo do Senhor não convém ficar resistindo ao perverso, mas amar até aos inimigos... mas isso já é outro estudo...

 

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

 

Muqui – Abril de 2013

 

Fontes:

 

Estudos no Sermão do Monte – Martin Lloyd-Jones

 

O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo – R. N. Champlin

 

Os Mandamentos de Jesus – Willian Carey Taylor

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Estudos no Sermão do Monte / parte 20 - Não Resistais ao Perverso 1 – A lei de talião e o ensino de Jesus


NÃO RESISTAIS AO PERVERSO – 1

 

- A lei de talião e o ensino de Jesus -

 

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.” (Mateus 5:38-42 RA)

 

01. Diante de nós está uma das leis mais antigas, a lei conhecida por alguns com “lei de talião”, que consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena; lei expressa pela máxima “olho por olho e dente por dente”, a lei que prescreve a pena que é denominada por alguns de “castigo-espelho”, isto é, castigo ou punição exatamente igual a crime.

02. E também diante de nós está o ensino do Senhor Jesus.

03. Qual o propósito dessa lei na legislação mosaica? Qual era a interpretação dos escribas e fariseus? (interpretação errada, posto que Jesus demonstra isso em sua palavra em parte contra os ensinos deles). E em que consiste o ensino de Jesus?

04. Vamos pensar um pouquinho nestas questões, começando pelo intuito da legislação Mosaica.

 

I. O intuito da legislação Mosaica

 

01. Para quem não tem conhecimento da parte da legislação Mosaica que sentencia “olho por olho e dente por dente”, cito os textos: Êxodo 21.24, Levítico 24.20 e Deuteronômio 19.21.

02. Creio que já tivemos ocasião, em dos estudos passados, de mencionar ligeiramente o intuito da legislação mosaica no que respeita a essa questão.

03. O principal intuito, segundo entendimento de diversos estudiosos/teólogos, era o de controlar excessos; controlar a ira a violência e a vingança. Constituía-se, portanto, em um principio regulador dentro da sociedade em desenvolvimento naquela época. Nas palavras de Lloyd-Jones:

 

... Deus não somente haverá de eliminar inteiramente o mal e o pecado, como todos os seus resultados, mas também, nesse ínterim, haverá de controlá-los e impor-lhes limites... Deus estabeleceu o presente preceito, o qual insiste que essas questões precisam ser controladas por um certo princípio de igualdade e equidade. Por conseguinte, se um homem chegasse a cegar a outrem, não deveria ser morto por esse motivo. Antes, seria “olho por olho”... O castigo era (deveria ser) sempre equivalente à ofensa, sem jamais excedê-la.

 

04. Vemos então que o objetivo era impor limites razoáveis. Tal lei não visava estimular a vingança, mas “regular”. O ideal é que, pelo menos no caso de pessoa a pessoa não houvesse retaliação. Mas, se essa viesse a existir, que fosse menor ou equivalente, e não mais...

05. Outra coisa importante a observarmos é que esse preceito foi dirigido não às pessoas comuns, mas aos juízes. Eles, os juízes, é que seriam responsáveis por julgar e sentenciar segundo esse preceito. Não podia qualquer pessoa do povo “fazer justiça com as próprias mãos”, mesmo que tal atitude fosse tomada de acordo com esses preceitos (assim como em nosso país – alguém que lhe rouba algo, por exemplo, pode ser sentenciado a ir preso, segundo a lei, se você der queixa; mas não é porque a lei prescreve essa sentença que você tem o direito de construir uma cela em sua casa e prender você mesmo o ladrão nessa cela... é de competência das autoridades constituídas).

06. Vejamos agora qual era o erro dos escribas e fariseus.

 

II. O Erro dos Escribas e Fariseus.

 

01. O erro dos escribas e fariseus era duplo:

a.    Eles ignoravam o fato de que esse preceito se destinava aos juízes, e fizeram dele uma questão de aplicação pessoal. Nas palavras do Pr. Irailton Melo de Souza, tiraram o código legal da mão dos juízes e puseram uma cópia na mão de cada cidadão comum, ou, se preferirmos, fez de cada cidadão comum o seu próprio juiz”. (http://www.jornalpequeno.com.br/2006/6/12/Pagina36100.htm). E com isso eles estavam estabelecendo uma sociedade ávida por fazer justiça com as próprias mãos (pelo menos em alguns casos).

b.    Eles interpretavam o preceito como se tratando mais de um direito sobre o qual eles deveriam insistir do que um princípio regulador das retaliações. E, mais ainda, eles tinham tal preceito como sendo uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal.

02. É nesse contexto de erro que aparece Jesus ensinando o que lemos nessa parte do Sermão da montanha. Nas palavras de Mauro Fernando Meister:

 

Quando ele (Jesus) afirma “ouvistes o que foi dito... eu, porém, vos digo...”, não está contradizendo a lei, mas interpretando-a da forma correta e traçando um contraste entre o “espírito da lei” e a interpretação farisaica. O fato é que esta lei era interpretada como um direito de vingança pessoal e não como um princípio de aplicação de pena pelas autoridades devidamente constituídas. Jesus não revoga a Lei de Talião; antes, a confirma... Quanto ao aspecto do perdão, quando questionado por Pedro a respeito de quantas vezes se deve perdoar, o Senhor Jesus deixa claro, tomando a sede de vingança de Lameque em Gn 4.24 (“Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete”), que pessoalmente o cristão deve perdoar “até setenta vezes sete” (Mt 18.22).

 

(http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_XII__2007__1/mauro.pdf)

 

03. Por último, consideremos o ensino de Jesus.

 

III. O Ensino de Jesus.

 

01. Depois de se referir à “Lei de Talião”, que apregoa o “olho por olho e dente por dente”, ou o “castigo-espelho”, isto é, punição exatamente igual ao crime, Jesus diz: “Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso...”.

02. O que está envolvido nesse ensino de Jesus?

03. Primeiro precisamos enfatizar que é certo que este não é um ensino para ser posto em prática em toda e qualquer situação. Se assim o fosse, chegaríamos a uma interpretação ridícula e impossível. Não poderíamos ter ou fazer uso, por exemplo, da força policial, porquanto tal força resiste aos perversos. E o mesmo poder-se-ia dizer com respeito às forças armadas, magistrados, juízes, tribunais de justiça... Já pensou?...

04. Dada esta ênfase, devemos levar em conta alguns princípios básicos que nos ajudam a compreender essa afirmação de Jesus. Esses princípios nos são apresentados por Lloyd-Jones em obra aqui usada com fonte de referência, e são os seguintes:

a.    Esse ensino não se destina nem às nações e nem ao mundo em geral e nada tem a ver com o indivíduo que não é discípulo de Jesus Cristo. Isso temos dito desde o início, quando estudávamos as bem-aventuranças, que, conforme vimos, são descrições daqueles que são discípulos de Jesus. Ora, ESSES, devem agir desta maneira; é a ESSES que Jesus se dirige. Esse é o modo de viver cristão, o modo de viver do homem que foi regenerado e transformado pelo poder de Deus.

 

Se solicitarmos de um indivíduo que não nasceu do alto, que não recebeu o Espírito Santo, para que ele viva uma vida cristã, então estaremos virtualmente dizendo que um homem pode justificar-se através de suas próprias obras, e isso é heresia. Assim fazendo, estaríamos sugerindo que se um homem concentrar a força da mente sobre essa particularidade, então poderá viver essa modalidade de vida, em virtude de seus próprios esforços. Ora, isso é contrariar frontalmente o ensino inteiro do Novo Testamento. Nosso Senhor fixou a verdade acerca disso de uma vez para sempre em sua entrevista com Nicodemos. Nicodemos virtualmente estava a ponto de indagar do Senhor: “Que devo fazer para ser semelhante a Ti?” E então, por assim dizer, o Senhor lhe respondeu: “Meu amigo, não pense em termos do que você é capaz de fazer; pois você nada pode fazer; antes, importa-lhe nascer de novo”...

 

Então, reafirmando, trata-se de um ensino não para as nações ou o mundo em geral ou ainda para indivíduo que não é discípulo de Jesus Cristo. Quanto a estes, continua sendo aplicável a “lei de talião”, ou a lei do “olho por olho e dente por dente”, no sentido de ser ela uma lei que, observando o princípio da proporcionalidade, visa refrear o indivíduo no tocante às retaliações, preservando assim a ordem social. E devemos lembrar sempre que tal lei não é de aplicação pessoal e sim através das autoridades constituídas.

 

b.    O segundo princípio é que esse ensino, o de não resistir ao perverso, é para ser aplicado em nossas relações pessoais e não em nossas relações como cidadãos de um país. Se algum discípulo de Jesus, por exemplo, em seu país é integrante das forças armadas, ou da força policial, ou ocupa a posição de magistrado, oficial de justiça, etc, ele deve cumprir o seu papel, que envolve, muitas vezes, resistência aos perversos.

c.    O terceiro princípio, e o último que vamos considerar aqui, é que esse ensino de Jesus, além de versar sobre a atitude do crente para com uma outra pessoa, versa sobre a atitude do crente para consigo mesmo. Ora, por que motivo muitas vezes “contra-atacamos”, de forma pessoal ou indo à justiça contra alguma pessoa? A questão não é o simples contra-ataque ou a simples busca dos recursos legais, e sim “a razão por que eu faço isto”. E a razão é quase sempre o “eu” (o “eu” que foi ferido, o “eu” que foi humilhado, o “eu” que não pode ser defraudado em seus direitos pessoais; o maldito eu que nunca se lembra de que Jesus disse que se alguém quiser ser seu discípulo tem que negar-se a si mesmo, seus “direitos pessoais”, sua própria vida, e tomar a sua cruz e segui-lo).

 

Por que, até mesmo dentro da igreja há muita gente de cara virada um para o outro, incapaz de pedir perdão, incapaz de perdoar, incapaz de aceitar um pedido de perdão, e por aí vai...? Diga-me se não é, em grande parte das vezes, se não na maioria, por causa do eu?

 

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.”

 

Finalizando, por enquanto...

 

01. Creio que já deu para começarmos a ter uma melhor compreensão do significado de não resistir ao perverso (ou às perversidades contra nós)

 

Fontes de consulta para este estudo:

 

- Estudos no Sermão do Monte – Martyn Lloyd-Jones

 

- Olho por Olho – A Lei de Talião no Contexto bíblico: 

http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/

revista/VOLUME_XII__2007__1/mauro.pdf

 

- Texto do Pr. Irailton Melo de Souza em http://www.jornalpequeno.com.br/2006/6/12/Pagina36100.htm

 

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