domingo, 9 de dezembro de 2012

Estudos no Sermão do Monte / parte 13 - Justiça maior que a dos Escribas e Fariseus


JUSTIÇA MAIOR QUE A DOS ESCRIBAS E FARISEUS

 

Mateus 5.20

 

 

Grande parte desse estudo tem como fonte o livro

Estudos no Sermão do Monte, de Martin Lloyd-Jones.

Extraído/resumido/adaptado/formatado

 

01. No estudo passado demos ênfase ao fato de que Jesus não veio para anular a lei e os profetas, mas para cumprir.

02. Jesus faz essa afirmação para, dentre outras coisas, combater as acusações farisaicas de que ele estava destruindo a lei.

03. Por que assim pensavam os fariseus acerca de Jesus? Algumas possíveis razões são:

a.    A não hesitação de Jesus em rebater as práticas deles (especialmente a motivação para tais práticas);

b.    O fato de Jesus não evitar certas companhias consideradas impróprias e até fazer questão de tê-las, fato por causa do qual ele chegou a ser chamado de “amigo de publicanos e pecadores” (Mateus 11.19);

c.    E o fato de seu ensino conter certo elemento que já destacava a doutrina da graça.

04. Será que o ensino de Jesus era incoerente com a lei e os profetas?

a.    Não!

b.    Mas era bem diferente do ensino dos escribas e fariseus. Por isso ele assevera aqui que a nossa justiça tem que ser em muito excedente à dos escribas e fariseus, isto é, temos que cumprir a lei de Deus melhor e mais corretamente que os escribas e fariseus.

05. Os escribas e os fariseus pareciam ser os homens mais santificados que havia. Entretanto, Jesus demonstra que, na verdade, eles eram bem deficientes no campo da justiça e da santidade, porque compreendiam e interpretavam erroneamente a lei. Por isso mesmo nossa justiça deve exceder em muito a deles.

06. Os escribas e os fariseus, de muitas maneiras eram os homens mais destacados da nação judaica.

a.    Os ESCRIBAS eram homens que passavam a vida ensinando e expondo a lei; eram as grandes autoridades sobre assuntos da lei da Deus. Dedicavam toda a sua vida ao estudo e à pratica da lei. Mais do que qualquer outro grupo de pessoas, portanto, eles podiam reivindicar a posição de estarem bem envolvidos na lei. Também eram homens que constantemente preparavam cópias da lei, exercendo o máximo cuidado nesse trabalho. A vida deles era gasta inteiramente em torno da lei, e, por esse motivo, todos lhes davam grande atenção.

b.    Os FARISEUS, por sua vez, eram os homens que se tinham notabilizado por sua pretensa piedade. Eram indivíduos que se separavam dos outros, e assim faziam por terem formulado um código sobre os atos cerimoniais vinculados à lei, um código que ia além da lei de Moisés. Eles haviam criado regras e regulamentos atinentes à vida e à conduta que, quanto à sua severidade, ultrapassavam as coisas ordenadas pelas Escrituras do Antigo Testamento. Por exemplo, no quadro verbal traçado por Jesus sobre o fariseu e o publicano que tinham ido orar no templo (Lucas 18.10-14), o fariseu dissera que costumava jejuar duas vezes na semana, mas não há essa determinação no Antigo Testamento; há apenas a determinação de um jejum anual. E foi assim que eles foram formulando um código extremamente severo de moral e conduta; e, em virtude disso, todo o povo pensava que eles, os fariseus, e os escribas eram os grandes modelos da virtude.

07. Como conseguir ser tão extraordinário quanto esses homens? Certamente era isso que pensavam os judeus comuns. Daí chega Jesus e diz que se deve excedê-los em muito. Ora, se já era impossível ser igual, como exceder, e em muito? – poderia perguntar alguém.

08. Mas será que eles eram tão extraordinários assim?

09. O povo pensava que sim, e em certo sentido, o que Jesus passaria a fazer dali por diante era demonstrar que não; demonstrar o quão vazio e oco eram muitos dos ensinos dos escribas e fariseus e, feito isso, apresentar ao povo a doutrina verdadeira.

10. Cumpre-nos, então, dar uma breve olhada na religião praticada pelos fariseus a fim de verificarmos seus defeitos e suas exigências. E uma das maneiras mais convenientes de isso fazermos é examinando aquele quadro verbal aqui já referido e que se encontra em Lucas 18.10-14, acerca do fariseu e do publicano que foram ao templo orar.

a.    O fariseu postou-se em pé, em lugar proeminente, de onde se pôs a agradecer a Deus por não ser igual aos demais homens, especialmente por não ser igual ao publicano.

b.    Em seguida, o fariseu começou a alegar certas coisas sobre si mesmo: ele não era roubador, injusto, adúltero e muito menos era como aquele publicano.

c.    Além disso, os fariseus tinham a sua característica modalidade de justiça externa: jejuavam duas vezes por semana.

d.    E mais: eram dizimistas meticulosos, dando o dízimo até de ervas como o endro, a hortelã e o cominho.

e.    E tudo isso era real em suas vidas. Entretanto, Jesus se indignava com a religiosidade deles. Em Mateus 23 percebemos claramente a indignação de Jesus – leia lá.

11. É por tudo isso que Jesus diz que nossa justiça precisa exceder em muito a dos escribas e fariseus.

12. Prossigamos analisando a religião praticada pelos escribas e fariseus:

a.    Era apenas formalidade externa (para ser vista pelos homens – Veja Mateus 6.1-5) – ao invés de uma religião do coração.

                                  i.    O objetivo deles era se autojustificarem diante dos homens – Veja Lucas 16.15.

                                ii.    Eles se ufanavam de suas práticas e faziam de tudo para que fossem vistas para serem, podemos assim dizer, “louvados”. Temos que cuidar para não cairmos no mesmo erro – corremos o risco de FAZER A COISA CERTA e mesmo assim errarmos na motivação – e corremos o risco de começarmos certo, pela motivação certa e nos tornarmos orgulhosos no meio do caminho. Se isso acontecer, corremos o risco de descansar sobre coisas que apenas dizem respeito à verdadeira adoração sem sermos adoradores autênticos.

b.    Preocupavam-se mais com os aspectos cerimoniais, como lavar as mãos, por exemplo, do que com as realidades morais. (muitos hoje se preocupam com o templo físico e com as coisas físicas do templo mais do que com a vida da igreja – ser zeloso é uma coisa, mas ultrapassar o limite do zelo e sacralizar objetos é outra coisa – há igreja que têm irmãos que não deixam de jeito nenhum, por exemplo, mover o púlpito para melhor realização de, por exemplo, uma peça teatral, não por medo de estragar o púlpito, mas por ele “ser sagrado”)

c.    Por causa de algumas regras e normas que eles inventaram acabavam por violar a própria lei – veja Marcos 7.5-13. – Eles eram casuístas, ou seja, pessoas que criavam ou se utilizavam de regras para justificar um ato ou acontecimento exclusivo, sem importar se tal ato ou acontecimento ataca as virtudes.

d.    Eles “coavam mosquitos”, mas “engoliam camelos” (Mateus 23.24 – a referência nem é a um mosquito grande, mas a um mosquitinho que é procriado na evaporação e fermentação do vinho, conhecido como mosquito do vinho ou mosquito pólvora).

e.    Só se preocupavam com eles mesmos e com sua própria forma de justiça – o objetivo final deles não era glorificar a Deus, mas a si mesmos. O objetivo não era a glória de Deus, mas serem vistos como “os caras”, como gostam de dizer os cariocas. (Isso não significa que vamos deixar de viver corretamente só para não sermos vistos como pessoas corretas – o problema não é ser considerado assim pelos outros, o problema é “fazer para”...). Queridos, não nos iludamos, nós somos inclinados a essa atitude; somos inclinados a nos “incharmos” por causa de nossas virtudes pessoais e nos desviarmos do alvo. Tendemos a pensar: “Nossa! Como eu prego bem!”; “Nossa! Como eu oro bem”; “Nossa! Como eu ensino bem na EBD”; “Nossa! Como eu desenvolvo bem esse ministério”; “Nossa! Como eu sou santo – alcancei altos degraus”... e tendemos a olhar os outros de cima para baixo – “Senhor, me livre disso! Coloque temor e tremor em meu coração!”. (Isso não significa que não vamos mais exortar, admoestar, disciplinar, corrigir os erros uns dos outros, mas significa que vamos fazer isso com muito temor e tremor e com muita humildade de espírito segundo o entendimento que tivemos ao estudar esse aspecto das bem-aventuranças; e também com muita mansidão, muita misericórdia e com atitude de pacificador, conforme o significado que obtivemos dessas virtudes ao estudarmos as bem aventuranças).

 

                                  i.    Os fariseus, quando executavam as normas de sua religião, na verdade só estavam pensando em si mesmos e no cumprimento de seus deveres religiosos e não na glória e honra de Deus. Jesus demonstra em sua história ilustrativa do fariseu e do publicano que tinham ido ao templo orar, que o fariseu fizera e dissera tudo isso sem ter realmente prestado qualquer adoração. “Ó Deus, graças te dou porque não como os demais homens...” – tal forma de agir / falar / pensar é, na verdade, um insulto a Deus. Cuidemos para não cair no mesmo erro. Lloyd-Jones em o livro que é a fonte principal desses nossos estudos coloca algo que sempre me foi objeto de preocupação e policiamento em relação a mim. Diz ele:

 

“Pergunto se às vezes não nos fazemos culpados de idêntica atitude. Não é esse um dos pecados permanentes daqueles que a si mesmos se intitulam evangélicos? Vemos outras pessoas obviamente negando a fé e vivendo na impiedade. Quão fácil é ficarmos satisfeitos conosco porque somos melhores do que outras pessoas e então pensarmos: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, principalmente como aquele modernista ali”. A nossa grande dificuldade é que nunca olhamos para nós mesmos, conforme somos vistos POR DEUS: jamais nos lembramos do caráter, da pessoa e da natureza de Deus... Por certo entre nós manifesta-se abundantemente a presunção, a lisonja prestada a nós mesmos e a autossatisfação”.

 

f.      Voltando aos fariseus, em sua vida diária exibiam total ausência daquelas atitudes delineadas nas bem-aventuranças.

g.    A grande falha dos fariseus é que eles se interessavam pelos detalhes e deixavam de lado os princípios básicos. Estavam mais interessados nas ações do que nos motivos; estavam mais interessados em fazer do que ser.

13. Esses eram os fariseus e sua “justiça” a qual devemos exceder em muito e vamos exceder se realmente fomos salvos pela graça. Vamos exceder não “para” sermos salvos, mas “porque”...

a.    “Porque” se fomos salvos pela graça mediante a fé, e, portanto, nos foi proporcionada uma nova natureza, Jesus Cristo está sendo formado em nós, habita em nós e o Espírito Santo também habita em nós.

b.    “Porque” o homem que assim nasceu do alto e que dispõe da natureza divina em seu interior é o homem que não vive mais para si mesmo, para as suas próprias realizações (lembrando que mesmo o que a gente acha que está fazendo para Deus às vezes estamos fazendo para nós mesmos), e nem mais é alguém que se acha justo segundo seus próprios conceitos conforme faziam os fariseus, e nem é mais alguém satisfeito consigo próprio, sendo, antes, humilde de espírito e tudo mais que encontramos nas bem aventuranças.

c.    “Porque” vamos agora cumprir a lei, a verdadeira lei de Deus, não mais a tendo como um fim em si mesma, mas porque, conforme aprendemos por Efésios 2.10, somos “poiema”, feitura, obra de arte de Deus em Cristo Jesus, e como tais devemos glorificá-lo. O grande objetivo nosso então é Deus e não nós mesmos. O nosso grande anelo é contribuir para a honra e a glória de nosso Senhor.

14. Caminho para o encerramento com as palavras/perguntas de Lloyd Jones:

 

Algumas das mais vitais perguntas que podemos fazer, por conseguinte, são estas:

 

·        Você conhece a Deus?

·        Você ama a Deus?

·        Você pode dizer, com honestidade, que a maior e primeira coisa em sua vida é a glória de Deus, e que você quer contribuir para ela com tão intensa disposição que não lhe importa o quanto lhe possa custar? [E se Deus lhe pedir...]

·        Você sente que ISSO deve vir em primeiro lugar, e não que você pareça melhor que qualquer outra pessoa, mas antes, que você de fato possa honrar, glorificar e amar Àquele Deus que, embora você tenha pecado tão ofensivamente contra Ele, enviou o Seu Filho Unigênito até à cruz do Calvário, a fim de morrer por você, tendo em vista que você fosse perdoado e que ele o restaurasse para Si mesmo?

 

15. E finalmente encerro dizendo que, conhecendo bem agora os fariseus, só podemos concordar com Jesus que nossa justiça tem realmente que exceder em muito à deles, porque a “justiça” que Deus de nós requer tem que provir Dele, glorificar a Ele e nos remeter a Ele. E cuidemos para que nenhum espírito de farisaísmo encontre guarida em nossos corações.

 

Com muito temor e tremor, e clamando para que Deus nos livre do espírito farisaico,

 

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

 

Muqui – Dezembro de 2012

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