sábado, 17 de agosto de 2013

Estudos no Sermão do Monte / parte 30 - NÃO JULGUEIS

 

NÃO JULGUEIS – Mateus 7.1

Estudos no Sermão do Monte – parte 30.

Livro base para estes estudos: Estudos No Sermão do Monte, de Martyn Lloyd-Jones

Outras obras usadas: O Novo Testamento Int. Vers. Por Vers. – R. N. Champlin / Recursos em BOL MA 3.00 / Dicionário Michaelis (online) / E-Book de Sermões e Ilustrações – Pr. Walter Pacheco

 

1.    Chegamos, finalmente, ao último capítulo do Sermão do Monte.

2.    Ainda vamos demorar um pouquinho mais para cobrirmos todo esse Sermão até o seu último verso, porque temos neste capítulo uma série de regras ou princípios que precisaremos estudar de forma separada, apesar de estas regras estarem interligadas pelo tema do juízo.

3.    Algumas vezes durante estes nossos estudos temos salientado que neste mundo caminhamos sob os olhos de nosso Pai Celestial. Mais uma vez devemos salientar isso. O nosso Deus é o Deus que tudo vê, é o Deus cujos olhos "estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons" (Pv. 15.3). É o Deus perante os olhos de quem estão todos os caminhos dos homens (Pv. 5.21). Então,

a.    Deus vê quando proferimos juízo errado contra alguém, mesmo que o façamos apenas nos recônditos do nosso coração;

b.    Deus vê se entramos pela porta estreita ou não; se estamos em caminho estreito ou no largo;

c.    Deus vê se somos pessoas que só dizem "Senhor, Senhor", mas não fazem o que Ele manda;

d.    Deus vê se nossa "casa" está sendo edificada sobre a areia ou sobre a rocha;

e.    Deus vê e sabe perfeitamente todas as coisas.

4.    Lembrados disso, pensemos no que Jesus nos diz em primeiro lugar neste capítulo.

5.    Em primeiro lugar ele nos diz: "Não julgueis..."

6.    "Não julgueis" é algo que gostamos de dizer. Guardamos essa declaração de Jesus em nossa mente e a usamos com frequência, muitas vezes sem entender o que ela realmente significa.

7.    O que realmente significa "Não julgueis"?

8.    Bem, primeiramente vejamos o que "não" significa:

 

"Não Julgueis" NÃO significa "não façam qualquer juízo"

 

9.    A ênfase dessa afirmação recai na palavra "qualquer", que significa aqui "nenhum".

10. Certamente que não é esse o significado dessas palavras de Jesus, e a razão de isso afirmar é o que encontramos na própria Bíblia como um todo e mais precisamente aqui mesmo neste capítulo.

11. Leiamos, por exemplo o verso 6: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas; para que não as pisem e, voltando-se, vos despedacem.” Como poderíamos por em prática essa palavra de Jesus se nos fosse realmente vedado fazer "todo e qualquer" juízo? Como poderíamos identificar o indivíduo merecedor do título de "cão" e "porco" (obviamente uma metáfora para pessoas de mente impura)? Em outras palavras, à declaração de Jesus de que não devemos julgar se segue imediatamente outra que nos pede que exerçamos juízo e classificação de pessoas.

12. Outro exemplo o temos nos versos 15 e 16: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.  Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” Ora, como poderíamos nos acautelar dos falsos profetas se não pudéssemos pensar, se não pudéssemos fazer algum tipo de juízo crítico, se não pudéssemos fazer jamais alguma avaliação dos ensinamentos de alguém? E como poderíamos conhecê-los pelos "seus frutos" se não nos fosse jamais permitido fazer qualquer juízo crítico sobre as práticas de alguém?

13. Então devemos procurar entender melhor, mais corretamente essas palavras de Jesus e, entendendo-as veremos que elas NÃO significam absolutamente que devemos ser pessoas caracterizadas por atitude de frouxidão e condescendência diante de qualquer indivíduo que use o nome de cristão.

14. Pensemos um pouco mais nessa questão, observando agora outras partes da bíblia que nos trazem luz. Uma dessas partes é a parte que nos mostra que à igreja cabe exercer disciplina sobre aqueles que dela fazem parte. Não tem isso na Bíblia? Sim tem! E se tem, como é que vamos colocar em prática se não nos é permitido de forma alguma fazer qualquer tipo de juízo? Como vamos "julgar" que determinada pessoa precisa ser disciplinada?

15. Outras partes são aquelas em que encontramos, principalmente o Apóstolo Paulo, exercendo e/ou instruindo a que se exerça alguma espécie de "julgamento".

a.    Veja 2 Timóteo 2.16-18

b.    Tito 3.10-11

c.    1 Coríntios 5.1-5 e 6.1-5

d.    1 Timóteo 5.19 (Presbítero = aquele que preside uma igreja – mostra que até o "ungido do Senhor" pode ser denunciado/julgado, ainda que não "de qualquer maneira", sem testemunhas – coloco isso aqui porque houve certa polêmica por esses dias sobre isso, quando alguém muito famoso disse pra não falarem contra pastor, mesmo que ele esteja no erro – e isso foi dito em tom ameaçador, como se Deus fosse amaldiçoar...)

16. Há muitos outros exemplos, mas estes nos bastam para nos fazerem pelo menos pensar que ao dizer "não julgueis" Jesus não estava nos proibindo de exercer todo e qualquer juízo.

17. Precisamos pensar mais, então. Precisamos procurar entender, e se não o conseguirmos no todo, pelo menos em parte, o que significa essa palavra de Jesus.

18. E, raciocinando à luz daquilo que encontramos em o Novo Testamento como um todo podemos pensar no seguinte, a título de exemplos, apenas para "abrir a nossa mente" em relação à questão:

 

"Não julgueis" significa que NÃO devemos exercer juízo condenatório e acompanhado de atitude de desprezo pelo outro.

 

19. Podemos, e mais do que podemos, devemos, como vimos, fazer avaliações e tais avaliações serão necessariamente com base em alguma espécie de julgamento, mas não devemos exercer o juízo condenatório contra qualquer pessoa.

20. Creio que a melhor maneira de entendermos o que significa esse juízo condenatório é através do exemplo, e na Bíblia o temos – veja em João 8.1-11 e veja também Lucas 9.51-56.

21. O juízo condenatório oferece alguns perigos, ou poderíamos dizer: se manifesta de algumas formas:

a.    O perigo do "ego inflado", ou do sentimento de superioridade – Essa manifestação leva a um desprezo pelo outro, a um sentimento de que o outro não é e nunca poderá ser digno "como nós somos" (ou pelo menos achamos que somos) – Veja Lucas 18.9-14.

b.    O perigo de nos tornarmos "críticos destrutivos" – Existe uma diferença entre crítica e "crítica". Uma visa a melhora do criticado enquanto a outra visa a derrota. A crítica construtiva pode até ser desfavorável, mas vem acompanhada do desejo e às vezes até da colaboração para que haja mudança para melhor. Já a crítica destrutiva, como o próprio nome diz visa a derrocada total e muitas vezes vem até acompanhada de um certo deleite pela situação ruim do outro. O crítico destrutivo tem uma satisfação maliciosa e maligna quando consegue detectar falhas e defeitos, e às vezes até se desaponta quando não as consegue encontrar, porque vive na expectativa destas coisas e deleita-se nelas. (Se estivéssemos na Assembleia de Deus do Pr. Joel certamente que agora alguém diria "Misericórdia!" – Me refiro a um irmãozinho de lá que assim se expressou numa ocasião em que eu lá estava a convite e que o pregador falou de algo errado que às vezes pastores também cometem). Enquanto eu digo isto talvez algumas pessoas venham à sua mente; Esqueça-as! Pense em você e em quantas vezes você mesmo comete esse erro. Como disse verdadeiramente Martin Loyde-Jones:

 

Se ao menos sabemos o que significa deleitar-se quando ouvimos algo de desagradável acerca de outrem, então é que temos essa atitude errada. Se somos invejosos, ou ciumentos [ou temos algum outro sentimento ruim em relação a alguma pessoa], e então subitamente ouvimos que [esta pessoa] incorreu em algum delito, e nisso descobrimos um imediato senso de satisfação em nosso íntimo, é que esse erro já nos infeccionou. Essa é a condição que conduz a esse espírito de julgamento.

 

"Não julgueis" significa que NÃO devemos exercer juízo "imaginário".

 

22. E como isso acontece!

a.    Acontece quando, por exemplo, imputamos motivos – Alguém se comporta de determinada forma que não sabemos porque e logo começamos a imaginar motivos. Eu tenho guardada uma boa história para ilustrar:

 

AQUELA RUA SOSSEGADA

 

Era um país distante daqui muitas e muitas milhas, havia uma grande cidade e nela uma rua pequena, com poucos quarteirões, sem saída, parecendo um pequeno condomínio.

Era uma rua sossegada.

Todos os moradores se conheciam e tudo transcorria em harmonia, até que chegaram novos habitantes para uma casa recém desocupada.

E os moradores antigos começaram a questionar, entre si:

- É uma família estranha.

- A dona da casa é esquisita.

- Pinta-se demais.

- Parece que passa o dia dormindo.

- Seus filhos ficam muito na rua.

- Recebe vários homens.

- Recebe também casais, às vezes acompanhados de uma mulher jovem.

- Parece que faz uso de drogas.

- Dá-se ao luxo de ter uma governanta.

- Não tem marido.

- É... deve ser uma "daquelas".

A maledicência chegou ao ponto máximo e depois começou a diminuir, "como é comum entre os homens". A estranha família foi relegada ao ostracismo e os vizinhos proibiram os filhos de brincar com "aquelas crianças". A rua retornou à sua quietude.

Um dia, viram uma ambulância chegar e levar a senhora. Na semana seguinte, souberam de sua morte ocorrida em um hospital.

Vieram alguns casais, levaram as crianças, e a "governanta" ficou mais um tempo, fechando a casa. Foi por ela que souberam de tudo. Aquela senhora, viúva de um militar, morto em combate, sofria de uma doença incurável, em fase terminal. Resolveu deixar o hospital para passar os últimos dias com os filhos e uma grande amiga, que veio para ajudá-la. Tomava analgésicos poderosos para amenizar-lhe as dores. Pintava-se muito para disfarçar a palidez. Os filhos brincavam na rua para não presenciar o tempo todo o seu sofrimento. Os homens eram o seu médico, o advogado, o psicólogo, o pastor de sua igreja. Os casais eram pessoas que tinham a intenção de adotar seus filhos. A mulher jovem era a assistente social...

 

b.    Acontece quando o exercemos sem conhecimento dos fatos e quando não procuramos compreender as circunstâncias.

                                  i.    Somos mestres, por exemplo, em "tomar o partido de alguém" sem conhecer a realidade dos fatos, sem compreender as circunstâncias, e acabamos por julgar mal, muitas vezes injustamente, a outra parte envolvida.

c.    Acontece quando "achamos" (não sabemos, mas "achamos") que alguém está se comportando de determinada forma porque, por exemplo:

                                  i.    Trabalha em algum tipo de emprego;

                                ii.    Já fez isso no passado e porque não faria de novo?

                               iii.    É solteiro/viúvo/divorciado e tem namorado(a), então está tendo relação sexual – (Duvido que não! – ainda se diz)

                               iv.    Etc.

 

"Não julgueis" significa que NÃO devemos exercer juízo sobre causas que não são causas justamente passivas de tal juízo. Em nosso caso, causas biblicamente embasadas. E também não devemos exercem juízo maior do a causa realmente merece.

 

23. Veja um exemplo em Colossenses 2.16-17

24. Uma vez (isso foi na década de 80) em uma determinada igreja que fomos, eu fui "julgado" crente de verdade enquanto que minhas colegas foram julgadas como não crentes de verdade, pela razão de elas estarem usando brincos, e, se não me falha a memória, meias calça.

25. E quanto a "enxergar algo maior do que realmente é", J. C. Ryle dizia que temos a "tendência de ver as fraquezas dos outros com lentes de aumento".

 

E, finalmente, "Não julgueis" significa que melhor que exercer juízo é exercer o amor e a misericórdia.

 

26. Veja Mateus 9.9-13 e Mateus 12.7.

Concluindo

 

27. Não julgueis, vimos, não significa ausência absoluta de qualquer tipo de juízo. Porém, que o juízo, ou a crítica, que fizermos:

a.    Não seja final e condenatória;

b.    Não seja acompanhada de desprezo pelo outro;

c.    Não seja sobre causas imaginárias;

d.    Não seja sobre causas que não sejam justamente passivas de juízo e nem maior do que a causa realmente merece;

e.    E que não seja sem amor e sem misericórdia.

28. Como disse o escritor John White, parafraseando a Bíblia: "coamos os mosquitos e engolimos os camelos, embora não se deva engolir nem mosquitos e nem camelos". O nosso julgamento como crentes precisa ser justo e amoroso, em todos os aspectos, com os nossos irmãos.

29. Veja Gálatas 6.1 e 1 Timóteo 5.1 e 2;

30. Obviamente, sabemos, em algumas ocasiões é preciso ser mais severo, mais grave – veja 1 Timóteo 5.20 e também veja 1 Coríntios 5.1ss, mas severidade e gravidade não significam desamor e falta de misericórdia.

31. Encerro com duas histórias que certamente nos acrescentarão alguma coisa:

 

Um pastor de uma pequena cidade estava evangelizando um fazendeiro, criador de porcos, tentando levá-lo a abrir seu coração para o Salvador. Todas as vezes que o pastor lhe falava de Jesus o fazendeiro apontava para os hipócritas da igreja. Certo dia, o pastor foi até a fazenda daquele homem e disse-lhe que desejava comprar um de seus porcos. "Tudo bem," disse o homem, "vou lhe mostrar os melhores porcos que tenho." "Não", retrucou o pastor, "quero o pior porco que o senhor tiver." "Mas por que deseja o pior se eu tenho excelentes porcos?", perguntou o fazendeiro. "É que eu pretendo levá-lo a todos os fazendeiros da vizinhança para mostrar o tipo de porcos que o senhor cria." Nós temos o péssimo costume de formar conceitos baseados no lado ruim daquilo que observamos. Se um político é corrupto, dizemos que todos os políticos o são. Se somos mal atendidos por um médico, criticamos a forma como todos os médicos atendem aos seus clientes. Se um estudante não leva a sério seus estudos na faculdade, logo concluímos que aquela instituição é fraca e seus professores incompetentes. O mesmo acontece na igreja. Se um cristão não age de maneira correta, logo proclamamos que "aquela igreja não é boa e seus membros são todos enganadores e hipócritas." Se um pastor age de maneira inconveniente e usa o dinheiro da obra de Deus sem a santidade que seu cargo exige, logo aparecem aqueles que se aproveitam para dizer que "os pastores só sabem cobrar o dízimo e enriquecer às custas dos bobos!" Mas na realidade, são atitudes de uma minoria, de pessoas que não têm qualquer experiência com Deus e se infiltram em certos lugares para tirarem proveito da situação.

 

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Conta-se que certo senhor foi passar uns tempos fora, visitando os seus familiares da zona rural. Quando voltou, encontrou um tal de João na estação e perguntou: “Houve alguma novidade na minha ausência?” “O senhor nem imagina”, relatou João, “deu uma ventania tão forte que derrubou minha casa”. “Isso não me espanta nem um pouco”, disse o senhor, que aliás se dizia crente. “Eu bem lhe avisei que seus pecados iam ser castigados, João”. João respondeu: “O vento derrubou sua casa também, senhor!” “Não me diga!” exclamou horrorizado e acrescentou: “Os desígnios do Senhor são insondáveis”

 

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Havia numa aldeia um velho muito pobre que possuía um lindo cavalo branco. Numa manhã ele descobriu que o cavalo não estava na cocheira. Os amigos disseram ao velho: - Mas que desgraça, seu cavalo foi roubado! E o velho respondeu: - Calma, não cheguem a tanto. Simplesmente digam que o cavalo não está mais na cocheira. O resto é julgamento de vocês. As pessoas riram do velho. Quinze dias depois, de repente, o cavalo voltou. voltou. Ele havia fugido para a floresta. E não apenas isso; ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. Novamente as pessoas se reuniram e disseram: - Velho, você tinha razão. Não era mesmo uma desgraça, e sim uma benção. E o velho disse: - Vocês estão se precipitando de novo. Quem pode dizer se é uma benção ou não? Apenas digam que o cavalo está de volta... O velho tinha um único filho que começou a treinar os cavalos selvagens. Apenas uma semana mais tarde, ele caiu de um dos cavalos e fraturou as pernas. As pessoas se reuniram e, mais uma vez, se puseram a julgar: - E não é que você tinha razão, velho? Foi uma desgraça seu único filho perder o uso das suas pernas. E o velho disse: - Mas vocês estão obcecados por julgamentos, hein? Não se adiantem tanto. Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe ainda se isso é uma desgraça ou uma benção... Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram obrigados a se alistar menos o filho do velho. Quem é obcecado por julgar cai sempre na armadilha de basear seu julgamento em pequenos fragmentos de informação, o que o levará a conclusões precipitadas. Nunca encerre uma questão de forma definitiva, pois quando um caminho termina outro começa, quando uma  porta   se fecha outra se abre. Assim é o curso da vida...

 

 

Muqui – Agosto de 2013

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