terça-feira, 20 de outubro de 2026

O mundo tornou-se um lugar estranho para mim

 

O MUNDO TORNOU-SE UM LUGAR ESTRANHO PARA MIM

O mundo tornou-se um lugar estranho para mim.

Não sei exatamente quando comecei a sentir isso. Talvez tenha sido um processo lento, quase imperceptível, como o entardecer que chega sem que percebamos o momento exato em que o sol começa a desaparecer. O fato é que, olhando ao redor, tenho a impressão de que continuo vivendo no mesmo mundo, mas já não reconheço muitas das coisas que encontro nele.

Não me refiro apenas às mudanças de comportamento, aos avanços da tecnologia ou à velocidade com que tudo acontece. O mundo sempre esteve em transformação. O que me causa estranheza é perceber que valores que antes pareciam fundamentais hoje são tratados como obstáculos; que convicções antes respeitadas agora são motivos de zombaria; que a verdade parece ter perdido seu valor, desde que cada um possa continuar acreditando naquilo que lhe convém.

Parece que estamos vivendo dias em que as pessoas se preocupam mais em parecer do que em ser, mais em defender suas opiniões do que em examinar se estão certas, mais em conquistar visibilidade do que em construir um caráter. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação, mas nem por isso nos tornamos melhores ouvintes. Estamos conectados a quase tudo e, ao mesmo tempo, cada vez mais distantes uns dos outros.

O que me entristece não é simplesmente perceber que o mundo mudou. É perceber a direção em que muitas dessas mudanças nos conduzem.

Como cristão, não posso olhar para essa realidade sem reconhecer que a Palavra de Deus já nos advertia sobre a natureza do coração humano. Não tenho o direito de me surpreender com a existência do pecado, como se a humanidade tivesse alguma vez sido capaz de salvar a si mesma. A Bíblia nunca nos apresentou o homem como naturalmente bom, nem nos prometeu uma sociedade perfeita construída apenas pelo progresso, pela educação ou pela evolução dos costumes.

Mas uma coisa é saber, pelas Escrituras, que o mundo está mergulhado em pecado; outra é contemplar, dia após dia, a maneira como o pecado é normalizado, celebrado e, muitas vezes, apresentado como virtude.

O que antes provocava vergonha agora pode ser motivo de orgulho. O que deveria despertar arrependimento é tratado como uma expressão legítima da própria identidade. A fidelidade tornou-se negociável, a santidade parece antiquada e a obediência a Deus é frequentemente considerada uma limitação à liberdade humana.

E o mais preocupante é que nem sempre essas coisas permanecem do lado de fora da igreja. Às vezes, entram discretamente, ocupam espaços, alteram prioridades e nos fazem esquecer que a igreja não foi chamada para reproduzir o espírito de sua época, mas para testemunhar, com palavras e vida, a verdade imutável do evangelho.

Como pastor, isso me faz pensar muito. Tenho dedicado boa parte da minha vida a estudar as Escrituras, anunciá-las e procurar conduzir pessoas a Cristo. E, com o passar dos anos, tenho aprendido que nem sempre a fidelidade produz os resultados que desejamos, que nem sempre o trabalho é reconhecido e que nem sempre aqueles por quem oramos caminham na direção que esperamos.

Há momentos em que o coração se cansa. Não necessariamente de Deus, nem de sua Palavra, mas da luta constante para permanecer fiel em meio a tantas contradições. Cansaço de ver a superficialidade ocupar o lugar da profundidade, a indiferença tomar o lugar do compromisso e as coisas eternas perderem espaço diante das urgências passageiras.

Às vezes, pergunto a mim mesmo se as pessoas ainda compreendem o significado de pertencer a uma igreja, de viver em comunhão, de assumir responsabilidades e de perseverar mesmo quando não há entusiasmo, aplausos ou reconhecimento. Pergunto-me se ainda entendemos que seguir a Cristo não é apenas desfrutar das bênçãos que ele concede, mas também tomar a cruz, negar a nós mesmos e permanecer firmes quando o caminho se torna difícil.

Não escrevo isso porque me considere melhor do que os outros. Conheço minhas próprias limitações, meus pecados, minhas incoerências e minhas necessidades diárias da graça de Deus. Se há alguma coisa que os anos deveriam ter me ensinado, é que não tenho motivos para confiar em minha própria justiça. Também preciso de arrependimento, correção, misericórdia e renovação. E talvez seja justamente por conhecer um pouco mais a fragilidade humana – inclusive a minha – que certas coisas me entristeçam tanto.

Não tenho saudosismo por tudo o que passou. O passado também teve suas dores, injustiças, hipocrisias e decepções. Não acredito que todas as pessoas de antigamente fossem melhores, nem que tudo o que é novo seja necessariamente ruim. A nostalgia pode nos enganar tanto quanto o entusiasmo irrefletido pelo presente. O que desejo não é voltar no tempo. É que não percamos aquilo que nunca deveria ter deixado de ser precioso: a verdade, a honestidade, a fidelidade, o temor de Deus, a santidade, o amor sincero, a responsabilidade e a disposição de fazer o que é certo, mesmo quando isso nos custa alguma coisa.

Talvez o mundo tenha se tornado um lugar estranho para mim porque, com o passar dos anos, algumas coisas que antes pareciam naturais agora me parecem extraordinárias. Uma palavra cumprida. Uma amizade leal. Uma pessoa que permanece quando seria mais fácil partir. Alguém que reconhece o próprio erro e pede perdão. Um cristão que serve sem precisar ser visto. Uma igreja que ora porque ama a Deus, e não apenas porque precisa de alguma coisa dele.

São coisas simples, mas não insignificantes. E é doloroso perceber que aquilo que deveria fazer parte da normalidade da vida parece, por vezes, estar se tornando exceção.

Ainda assim, não quero permitir que a estranheza se transforme em amargura, nem que a decepção me torne incapaz de amar. Existe uma linha tênue entre discernir os males do nosso tempo e desenvolver desprezo pelas pessoas que vivem nele. Preciso vigiar meu próprio coração para não me tornar semelhante àquilo que tanto critico.

Jesus nunca foi ingênuo a respeito do mundo. Conhecia a maldade humana, experimentou a rejeição, foi traído, abandonado e crucificado. Entretanto, não deixou de cumprir a missão que o Pai lhe confiara. Sua fidelidade não dependia da receptividade das pessoas, e sua obediência não estava condicionada à aprovação dos homens.

É nele que preciso manter os olhos.

Não fui chamado para salvar o mundo por meus próprios esforços, muito menos para carregar sozinho o peso de suas contradições. Fui chamado para ser fiel a Cristo, permanecer em sua Palavra, amar as pessoas, anunciar o evangelho e viver de modo coerente com aquilo em que creio. Não sei quanto ainda verei mudar ao meu redor. Não sei quantas das coisas que hoje me causam estranheza se tornarão ainda mais comuns nos próximos anos. Tampouco sei quantas mudanças Deus permitirá que eu testemunhe durante o tempo que me resta nesta vida...

Mas sei em quem tenho crido...

E isso precisa ser suficiente para continuar caminhando.

O mundo pode mudar seus conceitos, inverter seus valores, ridicularizar a fé e abandonar antigas certezas. Eu, porém, não posso permitir que a instabilidade dos tempos determine a firmeza das minhas convicções. Minha esperança não está na possibilidade de recuperar uma época que passou, nem na expectativa de que a sociedade volte a ser aquilo que um dia imaginei que deveria ser. Minha esperança está em Cristo, aquele que é o mesmo ontem, hoje e eternamente.

Talvez o mundo tenha se tornado um lugar estranho para mim. Talvez eu também precise aprender a atravessar esta época com mais sabedoria, paciência e discernimento. Mas não quero perder a capacidade de reconhecer a bondade de Deus em meio à confusão, de enxergar pessoas que ainda precisam do evangelho e de encontrar motivos para agradecer mesmo quando tantas coisas me entristecem.

Acima de tudo, não quero que o estranhamento diante do mundo me faça esquecer a minha própria condição de peregrino.

Este mundo nunca foi meu destino final. Minha pátria definitiva não está aqui. Enquanto caminho por esta terra, sou chamado a viver com os pés no chão, o coração cheio de amor pelas pessoas e os olhos voltados para a eternidade.

Não preciso me sentir em casa em tudo o que o mundo oferece. Preciso apenas me lembrar de a quem pertenço.

E, enquanto Deus me conceder vida, quero continuar procurando ser fiel. Mesmo que os tempos mudem. Mesmo que os valores se invertam. Mesmo que, por vezes, eu me sinta um estranho neste mundo.

Porque o meu maior temor não deve ser o de me tornar estranho a esta geração, mas o de me tornar semelhante a ela a ponto de deixar de refletir o caráter de Cristo.

Somente pela graça,

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

20 de outubro de 2026

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