A MATEMÁTICA TRISTE DA BEIRA DO CAMINHO
(Com base na parábola do semeador)
Naquela manhã, o semeador saiu cedo.
Como sempre fazia,
lançou sementes sem escolher demais o terreno.
Jogava com mãos generosas.
Algumas caíam à beira do caminho.
Outras entre pedras.
Outras entre espinhos.
E algumas, finalmente, em boa terra.
Curioso é que,
entre os solos que receberam a semente com algum tipo de
resposta inicial,
nem todos chegaram ao fim.
Houve quem recebesse a palavra com alegria imediata,
emoção intensa,
entusiasmo quase contagiante.
Jesus descreve gente assim.
O coração aquece rápido.
Os olhos brilham.
As palavras são fortes.
Os projetos são grandiosos.
Parece que agora vai.
Parece que, finalmente, criou raiz.
Mas nem sempre criou.
Na parábola,
dos que receberam com alegria,
uma parte secou sob o calor das lutas;
outra foi sufocada pelos espinhos das preocupações,
riquezas e desejos desta vida.
Apenas um solo permaneceu frutificando.
É uma matemática desconfortável.
Às vezes, olhando em volta,
parece que a parábola saiu do campo da Galileia
e atravessou os séculos intacta.
Como se Jesus não estivesse apenas contando uma história
agrícola,
mas descrevendo com precisão dolorosa o coração humano
em todas as épocas...
inclusive a nossa.
Há pessoas que se encantam com o Evangelho,
mas não suportam profundidade.
Gostam da euforia do começo,
mas não da perseverança do caminho.
Querem a promessa do Reino,
mas não a renúncia da cruz.
Enquanto tudo é favorável,
cantam alto,
falam bonito,
emocionam-se facilmente.
Porém, quando chega o sol da oposição,
da disciplina,
da luta contra o próprio pecado,
começam a murchar silenciosamente.
Não foi o sol que matou a planta. Foi a falta de
raiz.
Outros até continuam presentes por algum tempo.
Frequentam cultos,
repetem jargões,
mantêm aparência religiosa.
Mas os espinhos crescem junto.
E espinhos têm uma característica terrível:
não arrancam a planta de imediato;
apenas roubam seu ar devagar.
O coração começa a se ocupar demais com dinheiro,
status,
vaidades,
distrações,
preocupações incessantes,
desejos de conforto,
ambições pessoais.
A Palavra ainda está lá,
em algum canto da alma,
mas já não governa mais nada.
O Reino vai sendo apertado lentamente até perder espaço.
E talvez uma das tragédias mais silenciosas da igreja
moderna seja esta:
muita gente ainda tem linguagem de discípulo,
mas já vive sufocada há muito tempo.
A parábola não fala de pessoas que odiaram a semente.
Fala de gente que, em algum nível, a recebeu com alegria.
Esse detalhe assusta.
Porque existe uma alegria que não nasce de arrependimento
profundo,
mas apenas de empolgação momentânea.
Uma alegria sem raiz.
Uma fé fascinada com benefícios,
mas não transformada pela verdade.
Uma espiritualidade que floresce rápido para as pessoas
verem,
mas que não resiste quando Deus começa a trabalhar no
subterrâneo do coração.
E o mais inquietante é que, olhando certas atitudes de
muitos que se dizem cristãos hoje,
às vezes parece que a proporção da parábola continua
assustadoramente atual.
Muitos começam. Poucos perseveram.
Muitos gostam da multidão seguindo Jesus;
poucos permanecem quando Ele fala sobre negar-se a si
mesmo.
Muitos celebram milagres; poucos suportam podas.
Muitos querem consolo; poucos querem transformação.
Talvez porque raiz exige profundidade.
E profundidade dói.
A boa terra da parábola não é o coração perfeito.
É o coração que permanece.
O coração que suporta o sol,
luta contra espinhos
e continua guardando a Palavra mesmo nos dias secos.
No fim, a parábola do semeador não é apenas sobre
agricultura espiritual.
É sobre permanência.
E talvez a pergunta mais importante não seja: “Eu recebi
a semente com alegria?”
Mas: “O que está acontecendo com ela “hoje” no meu
coração?”
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