domingo, 12 de agosto de 2012

Estudos no Sermão do Monte parte 2: “Bem venturados os humildes de espírito”


BEM-AVENTURADOS OS HUMILDES DE ESPÍRITO

 

Extraído/resumido/adaptado de “Estudos no Sermão do Monte”

Martyn Lloyde-Jones – Editora Fiel

 

“Bem-aventurados os pobres (ou humildes) de espírito, porque deles é o Reino dos céus;” (Mateus 5:3 RC)

 

01. Essa é a primeira bem-aventurança, e serve de chave para a compreensão do que vem em seguida.

02. Se o texto vai descrever pessoas que pertencem ao reino celestial, é necessário que esta seja a primeira bem-aventurança, porque nesse reino não pode existir, e não existe sequer um participante que não seja “humilde de espírito”.

03. Essa é a característica fundamental do crente, do cidadão do reino dos céus; e todas as demais características, são, em certo sentido, resultantes dessa primeira.

04. Na medida em que formos avançando na exposição dessa bem-aventurança, verificaremos que ela indica, realmente, um esvaziamento, ao passo que as demais apontam para uma plenitude.

a.    Não poderemos ser cheios enquanto não formos primeiramente esvaziados.

b.    Não se pode encher uma garrafa de café fresquinho enquanto não se esvaziá-la do café velho e frio.

c.    Existe uma espécie de esvaziamento antes que possa haver um enchimento.

d.    O evangelho sempre exibe essas duas facetas; há o derribamento para que possa haver a edificação.

e.    Faz parte do evangelho o fato de que a convicção de pecado sempre deve anteceder a conversão;

f.     o evangelho de Cristo condena o pecador antes de libertá-lo.

05. Essa não é uma idéia muito popular.

a.    Infelizmente, nos dias atuais, ela não tem sido muito popular nem mesmo entre os que se dizem crentes em Jesus.

b.    A grande ênfase dos dias atuais é sobre a auto-dependência, autoconfiança, auto-expressão, autoestima.

c.    Humildade de espírito, para muitos, é fraqueza.

06. Mas esta primeira bem-aventurança diz que o reino dos céus pertence a quem?

a.    Aos humildes de espírito.

07. Vejamos, então, o que significa ser humilde de espírito.

08. Abordaremos o assunto começando por apresentar algumas idéias de forma negativa.

 

I. Ser humilde de espírito NÃO quer dizer que devemos ser tímidos e fracalhões, retraídos, acovardados...

 

09. Existem pessoas que, reagindo contra a atitude de autoafirmação, pensam que é assim que deveríamos agir, mesmo isso não fazendo parte de nossa natureza, mesmo não tendo nascido assim.

10. E há pessoas que são naturalmente assim, carentes de certo senso de ousadia.

11. Mas isso, nem no caso forçado e nem no caso natural é ser humilde de espírito em seu real sentido.

12. Lembrem-se de que já vimos que as características apresentadas nas bem-aventuranças não são características naturais, e, portanto, os humildes de espírito não são aqueles que “já nasceram assim”.

13. Então gravem bem isso: Ser humilde de espírito NÃO quer dizer que devemos ser tímidos e fracalhões, retraídos, acovardados...

 

II. Ser humilde de espírito NÃO é ser praticante de uma falsa humildade

 

14. Muitas pessoas têm confundido dessa maneira essa qualidade da humildade de espírito.

15. Martyn Lloyd-Jones conta: “Lembro-me de certa ocasião em que eu fora pregar em uma cidadezinha. Quando cheguei, no Sábado à noite, um homem já estava à minha espera na estação. Imediatamente ele pediu-me para que eu lhe entregasse a minha bagagem; na verdade, quase a arrancou à força de minha mão. Em seguida, falou mais ou menos nestes termos: ‘Sou diácono da igreja onde o senhor irá pregar amanhã. Eu sou um mero João-ninguém, uma pessoa sem a mínima importância. Eu não sirvo para nada. Não sou nenhum grande vulto da igreja; sou apenas um daqueles que transportam a bagagem do pastor’. Ele ansiava para que eu soubesse quão humilde ele era. Todavia, por meio da ansiedade que demonstrava para que eu reconhecesse isso, ele negava exatamente o que procurava estabelecer”.

16. O homem que, por assim dizer, gloria-se dessa forma em sua humildade de espírito, mediante tal atitude apenas prova que não é humilde. Tudo não passa de uma atitude afetada, algo que, como é óbvio, aquela pessoa não está sentindo.

17. O indivíduo que se veste de determinada forma, se comporta de determinada forma, ou faz qualquer outra coisa de modo forçado, simplesmente para passar uma idéia de humildade, simplesmente por querer parecer humilde, não é humilde de fato.

18. A prática de uma falsa humildade não é humildade de fato.

 

III. Ser humilde de espírito NÃO exige a supressão de sua personalidade.

 

19. Personalidade é o conjunto de características de uma pessoa, características estas que determinam o seu padrão de pensar, sentir e agir. É a sua individualidade.

20. Ser humilde de espírito não exige a supressão dessas características.

21. Tomemos como exemplo o Apóstolo Paulo – Depois de se converter a Cristo ele continuou tendo a personalidade que tinha antes, só que agora, redirecionada, reorientada...

 

IV. Ser humilde de espírito NÃO é nem mesmo ser humilde conforme alguns homens naturalmente o são.

 

22. Um pessoa pode ser humilde por natureza, ou ter-se tornado humilde por alguma razão não espiritual, mas isso não quer dizer que ela seja humilde de espírito.

 

23. Então, de forma positiva, o qué é ser humilde de espírito?

 

V. Ser humilde de espírito é,...

... POSSUIR COMPLETA AUSÊNCIA DE ORGULHO PESSOAL,

COMPLETA AUSÊNCIA DE SEGURANÇA PRÓPRIA E AUTODEPENDÊNCIA,

CONSCIÊNCIA DE QUE NADA REPRESENTAMOS DIANTE DE DEUS

 

24. Deus disse, e o profeta Isaías registrou: “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Em um alto e santo lugar habito e também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57:15 RC)

25. Contrito e abatido são tradução de duas palavras do hebraico bíblico que indicam sentimento de se estar esmagado, humilhado, de que se é pó. No caso em questão, o contrito e abatido de espírito é aquele que, diante de Deus, se sente um nada, impotente, pó, esmagado, humilhado – nada tem que pode ser digno de se oferecer a Deus.

26. Veja em 2 Samuel 7.18 e 1 Crônicas 29.14 o exemplo notável de Davi.

27. Veja o exemplo de Isaías em 6.1 ss.

28. O apóstolo Pedro era, por natureza, um homem agressivo, que se impunha aos seus semelhantes e era dotado de forte confiança própria. Contudo, quando ele realmente viu ao Senhor, reconheceu quem ele era, lhe rogou: “Senhor, ausenta-te de mim, por que sou um homem pecador.” (Lucas 5:8 RC). Pedro, por natureza, nunca foi um homem fraco, tímido, mas, mesmo tendo essa característica natural, tornou-se um homem “humilde de espírito”.

29. Paulo era um homem igualmente dotado de tremendas potencialidades, e, como homem natural, tinha plena consciência delas. Todo homem que tem grande potencial, se ainda não sabe disso, cedo ou tarde ficará sabendo. Paulo sabia do seu potencial. Entretanto, esse homem cheio de potencialidades, ao falar sobre a missão apostólica, a missão de manifestar o bom perfume de Cristo, de espalhar a mensagem do evangelho, em 2 Coríntios 2.16 questiona: “Para estas coisas quem é idôneo?”; em outras palavras: “Quem é suficiente para estas coisas?”. Paulo, amados, o grande Paulo, estava reconhecendo que nenhuma pessoa, por si mesma, pode ser veículo de tão poderosa mensagem, e que toda suficiência provém de Deus, que a delega a homens. Em outras palavras, Paulo estava dizendo: eu sou apóstolo, mas só o sou porque Deus me concedeu ser; não há nada de natural em mim, por mais capaz que eu o seja, que me torne apto para a missão; Deus é quem me tornou suficiente para tal missão. Paulo sabia que, diante de Deus, para trabalhar pra Deus, ele era insuficiente; e se sentia assim. Paulo era “humilde de espírito”.

30. Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas estes nos bastam para entendermos que ser humilde de espírito

a.    é reconhecer que diante de Deus nada somos,

b.    é reconhecer, como disse Dietrich Bonhoefer, a nossa falência espiritual,

c.    é reconhecer o quão nulo nós somos diante de Deus, o quão pobres, o quão miseráveis somos,

d.    reconhecer a nossa inteira dependência da misericórdia e da graça de Deus.

31. Rconheçamos:

a.    Deus não precisa das nossas orações – nós é que precisamos orar.

b.    Deus não precisa do nosso louvor, da nossa adoração – nós é que precisamos louvá-Lo e adorá-Lo.

c.    Deus não precisa das nossas ofertas – nós é que precisamos ofertar.

d.    Jesus não precisa que nós o “aceitemos” – nós é que precisamos que ele nos aceite.

e.    Deus não precisa de nada de nós – nós é que precisamos desesperadamente d’Ele.

f.     Não há nada em nós, e nem temos nada, absolutamente nada, nenhum de nós, que possamos oferecer a Deus para nos fazer merecer um mínimo sequer de Sua atenção, quanto mais as insondáveis bênçãos com as quais Ele nos abençoa – Tudo o que Deus nos dá, tudo o que Ele faz por nós e até tudo o que Ele recebe de nós, é inteiramente por causa de Sua graça, Seu amor Sua misericórdia.

32. Reconhecer e sentir isso sinceramente é que é ser humilde de espírito. Então poderemos dizer para o Senhor:

 

“Nada trago em minha mão. Só na Tua cruz me agarro.

Vazio, desamparado, nu e vil. Entretanto, ELE é o Todo- Suficiente –

Sim, tudo quanto me falta em Ti encontro.

Oh, Cordeiro de Deus, venho a Ti.

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