quinta-feira, 7 de maio de 2026

ECLESIASTES 11.9-12.7 Crônica: “O DIA EM QUE O RELÓGIO FALOU”

ECLESIASTES 11.9-12.7 

Crônica:

“O DIA EM QUE O RELÓGIO FALOU”

Era uma tarde comum. Dessas que passam sem pedir licença, escorrendo entre compromissos, conversas rápidas e pensamentos soltos. O relógio na parede da sala marcava as horas com uma insistência quase irritante – tic, tac, tic, tac – como se tivesse algo importante a dizer, mas ninguém estivesse disposto a ouvir.

Lucas, sentado no sofá, rolava distraidamente o celular. Jovem, cheio de planos, com a vida ainda aberta como uma estrada longa demais para se preocupar com o fim. Ria de vídeos, respondia mensagens, fazia promessas para o futuro como quem tem todo o tempo do mundo guardado no bolso.

Na cozinha, seu avô observava em silêncio. Já não falava muito, mas carregava nos olhos uma espécie de sabedoria que não precisava de muitas palavras. Seus movimentos eram mais lentos, calculados, como quem aprendeu que cada gesto tem valor. Ele olhou para o neto, depois para o relógio, e suspirou levemente.

– Engraçado… – disse, com voz baixa – quando eu tinha sua idade, esse relógio parecia quebrado. O tempo quase não andava.

Lucas levantou os olhos, meio sem entender.

– E agora? – perguntou, mais por educação do que por interesse.

O velho sorriu, um sorriso carregado de memórias.

– Agora ele corre. Corre como se estivesse atrasado para algum compromisso importante.

O silêncio se instalou por um momento. O tic-tac continuava, mas, de alguma forma, parecia mais alto.

– Sabe… – continuou o avô – a gente vive achando que a vida começa depois. Depois que conquistar algo, depois que resolver problemas, depois que tiver tempo. Mas, quando percebe… o “depois” já virou ontem.

Lucas travou a tela do celular. Pela primeira vez naquela tarde, o som do relógio incomodou de verdade.

– E o que a gente faz com isso? – perguntou, agora com um leve peso na voz.

O avô olhou pela janela. O sol começava a descer, tingindo o céu de um dourado suave, quase nostálgico.

– A gente aprende a lembrar do que realmente importa… antes que seja tarde. Aprende a não gastar a vida só com o que é passageiro. Aprende a colocar Deus no centro enquanto ainda há força, enquanto ainda há escolha.

Ele fez uma pausa, como quem organiza as próprias lembranças.

– Porque chega um tempo, meu filho… em que o corpo já não acompanha, a mente se cansa, e até as coisas que antes davam prazer perdem o gosto. E aí, o que sobra… é aquilo que foi construído com Deus.

Lucas olhou novamente para o relógio. O mesmo de sempre. O mesmo som. Mas algo tinha mudado. Talvez não no relógio… mas nele.

Naquela tarde comum, entre um vídeo e outro, entre uma conversa simples e um pôr do sol silencioso, ele percebeu algo que nunca tinha realmente considerado: o tempo não é infinito. E a vida não espera.

O relógio continuava seu trabalho, fiel, implacável.

Mas agora, finalmente, alguém estava ouvindo.

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