quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Já fomos tragados, mas ainda não percebemos?

 

JÁ FOMOS TRAGADOS, MAS AINDA NÃO PERCEBEMOS?

 

Um alerta à igreja de Cristo

 

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” – 1 Pedro 5.8 (ARC)

 

Há advertências bíblicas que não foram escritas para nos assustar, mas para nos despertar.

 

Esta é uma delas.

 

O apóstolo Pedro nos apresenta uma realidade que muitos cristãos parecem ter esquecido: temos um adversário espiritual, e ele não está brincando de ser inimigo. O diabo anda em derredor, procurando uma oportunidade para tragar aqueles que pertencem a Cristo.

 

Observe que Pedro não diz que o diabo está procurando apenas os que nunca ouviram o Evangelho, os que não frequentam uma igreja ou os que vivem declaradamente na prática do pecado. Ele adverte os próprios cristãos! Isso significa que precisamos vigiar, porque ninguém deve se considerar tão forte espiritualmente que esteja dispensado de cuidar da própria alma.

 

O perigo é que nem sempre percebemos quando estamos sendo vencidos. Alguns imaginam que só serão tragados pelo inimigo quando cometerem um pecado escandaloso, quando abandonarem publicamente a fé ou se envolverem em alguma situação moralmente vergonhosa. Entretanto, a destruição espiritual pode começar silenciosamente, muito antes de se tornar visível.

 

É possível que alguém já esteja sendo tragado pelo inimigo e ainda não tenha percebido a gravidade de sua condição espiritual. Continua frequentando a igreja ocasionalmente, mantém a aparência de cristão, conhece os hinos, sabe responder às perguntas bíblicas e até conserva uma linguagem religiosa. Mas, por dentro, sua comunhão com Deus está enfraquecida, sua consciência está ficando insensível e seu amor pelas coisas espirituais está desaparecendo.

 

É como uma casa que continua de pé por fora, enquanto os cupins trabalham silenciosamente por dentro. Quando os sinais da destruição finalmente aparecem, o estrago pode já ser considerável.

 

Existe um exemplo na natureza que nos ajuda a compreender essa realidade. O chamado marimbondo-cavalo, nome popular aplicado a certas vespas caçadoras de aranhas, pode capturar uma tarântula e colocar nela um ovo. A aranha é paralisada, mas permanece viva. Quando a larva nasce, passa a alimentar-se de seu hospedeiro, consumindo seus tecidos gradualmente. A tarântula pode continuar ali, aparentemente preservada, enquanto algo está destruindo sua vida por dentro.

 

Que imagem impressionante para ilustrar o perigo da negligência espiritual!

 

Naturalmente, não estamos dizendo que o diabo age biologicamente como esse inseto, nem que a comparação seja uma descrição literal da atuação espiritual. Trata-se de uma ilustração: assim como a tarântula pode permanecer viva enquanto é consumida, um cristão pode conservar sua aparência religiosa enquanto sua vida espiritual vai sendo corroída.

 

E quais seriam essas pequenas “larvas” que, quando toleradas, podem contribuir para a destruição da nossa vida com Deus?

 

Vejamos algumas:

 

1.     A “larva” dos pecados tolerados

 

Tudo começa, muitas vezes, com algo que sabemos estar errado, mas decidimos não abandonar.

Uma mentira que parece insignificante. Uma impureza escondida. Um ressentimento alimentado durante anos. Uma conversa maliciosa. Um hábito secreto que não queremos que ninguém descubra. Uma desonestidade que justificamos porque, afinal, “todo mundo faz”.

 

O problema não está apenas no ato cometido, mas na decisão de conviver com aquilo que Deus condena.

 

Quando o pecado deixa de nos entristecer e passa a ser justificado, alguma coisa séria está acontecendo em nossa alma. A consciência começa a perder a sensibilidade, e aquilo que antes nos levava ao arrependimento passa a ser tratado com naturalidade.

 

O pecado que hoje toleramos pode se tornar amanhã o senhor que nos domina.

 

2.     A “larva” da falta de oração

 

A oração é uma expressão da nossa dependência de Deus. Quando deixamos de orar, não perdemos apenas alguns minutos de devoção; corremos o risco de viver como se pudéssemos conduzir nossa vida espiritual com nossas próprias forças.

 

Primeiro, deixamos de orar pela manhã. Depois, passamos o dia inteiro sem falar com Deus. Em seguida, oramos somente quando enfrentamos uma emergência. Finalmente, podemos nos acostumar a viver sem uma comunhão consciente e perseverante com o Senhor.

 

Jesus advertiu seus discípulos: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mateus 26.41).

 

A falta de oração não significa que Deus deixou de ouvir, nem que todo cristão que enfrenta dificuldades na oração já foi vencido pelo diabo. Mas a negligência persistente nesse aspecto nos torna menos vigilantes diante das tentações e mais inclinados a confiar em nós mesmos.

 

3.     A “larva” do abandono da Palavra

 

Uma Bíblia fechada pode representar muito mais do que um livro esquecido sobre uma mesa. Pode revelar uma vida que deixou de buscar orientação na voz de Deus.

 

O cristão que não se alimenta regularmente das Escrituras fica mais vulnerável às mentiras, aos enganos e às ideias que contradizem a verdade divina.

 

Sem o conhecimento crescente da Palavra, começamos a avaliar o certo e o errado pelos sentimentos, pela opinião dos outros ou pelos costumes deste mundo. Passamos a aceitar como verdade aquilo que nos agrada e a rejeitar aquilo que nos confronta.

 

O salmista declarou: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Salmo 119.11).

 

Não basta possuir uma Bíblia. É necessário lê-la, compreendê-la, meditá-la e submeter-se à sua autoridade.

 

4.     A “larva” da indiferença para com as coisas de Deus

 

Há uma condição perigosa na qual a pessoa não necessariamente abandona a fé de uma vez, mas deixa de se importar.

 

A oração já não desperta interesse. A pregação já não produz reflexão. O pecado alheio incomoda mais do que o próprio pecado. A santidade parece exagero. A evangelização torna-se responsabilidade dos outros. A obra de Deus passa a ser tratada como algo secundário.

 

A pessoa ainda está presente em alguns ambientes religiosos, mas seu coração já não está verdadeiramente envolvido com as coisas do Senhor.

 

A igreja de Laodiceia foi repreendida por sua mornidão espiritual (Apocalipse 3.15-19). O problema não era a ausência completa de religião, mas uma condição espiritual que precisava de arrependimento.

 

Uma das maiores tragédias espirituais é quando deixamos de sentir falta daquilo cuja ausência deveria nos entristecer.

 

5.     A “larva” do abandono da comunhão da igreja

 

Alguns começam faltando a uma reunião. Depois, faltam a várias. Deixam de participar da Escola Bíblica Dominical, dos cultos de oração e das oportunidades de serviço cristão. Aos poucos, a comunhão dos irmãos perde sua importância.

 

Sempre aparece uma justificativa. Às vezes, existem razões legítimas para a ausência, como enfermidades, trabalho, limitações físicas ou responsabilidades familiares. Não devemos julgar precipitadamente quem enfrenta essas circunstâncias.

 

O perigo está em transformar a ausência ocasional em descompromisso habitual, sem qualquer preocupação em preservar a comunhão com o povo de Deus.

 

A Bíblia nos exorta a não abandonar a nossa congregação (Hebreus 10.25). A igreja não é apenas um lugar ao qual comparecemos; é uma comunidade na qual somos ensinados, corrigidos, encorajados e fortalecidos.

 

Uma brasa retirada do braseiro perde gradualmente o calor que recebia das demais. Da mesma forma, o isolamento persistente pode enfraquecer a caminhada cristã e nos privar de instrumentos que Deus usa para nosso crescimento.

 

6.     A “larva” do orgulho espiritual

 

O orgulho é especialmente perigoso porque pode se disfarçar de maturidade.

 

A pessoa já não aceita correção. Considera-se mais esclarecida do que os demais. Acredita que não precisa aprender, que seus erros são pequenos e que as advertências bíblicas se aplicam sempre a outras pessoas.

 

Quando alguém deixa de reconhecer a própria necessidade de arrependimento, fecha o coração para um dos principais meios pelos quais Deus nos conduz à restauração.

 

A Escritura declara: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16.18).

 

O cristão maduro não é aquele que acredita não ter mais nada a corrigir, mas aquele que continua disposto a ser corrigido pela Palavra de Deus.

 

7.     A “larva” da falta de perdão e do ressentimento

 

Há pessoas que continuam frequentando os cultos, cantando e ouvindo sermões, mas carregam no coração uma ferida que se transformou em amargura.

 

Não conseguem perdoar. Relembram continuamente a ofensa. Alimentam pensamentos de vingança e desejam secretamente o mal de quem as feriu.

 

A dor pode ser real, e algumas feridas exigem tempo, cuidado e limites apropriados. Perdoar não significa aprovar o mal, negar a injustiça ou permanecer em situações abusivas. Significa, porém, não permitir que o ressentimento governe o coração.

 

Efésios 4.31-32 nos exorta a abandonar a amargura e a perdoar uns aos outros, como também Deus nos perdoou em Cristo.

 

Quando a amargura se instala, ela não destrói somente relacionamentos; pode também comprometer nossa paz, nossa comunhão e nosso testemunho cristão.

 

8.     A “larva” do amor ao mundo

 

O coração pode começar a se afastar de Deus muito antes de os pés deixarem a igreja.

 

Isso acontece quando o dinheiro passa a ocupar o lugar da confiança em Deus; quando o sucesso profissional se torna mais importante do que a fidelidade; quando o prazer pessoal se sobrepõe à obediência; quando a aprovação dos homens vale mais do que a aprovação do Senhor.

 

Não há pecado em trabalhar, prosperar, desfrutar das bênçãos legítimas da vida ou cuidar da família. O problema começa quando as coisas criadas ocupam o lugar que pertence ao Criador.

 

Jesus advertiu: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6.24).

 

É possível que alguém continue afirmando que ama a Deus enquanto suas escolhas revelam que seus maiores afetos estão em outro lugar.

 

9.     A “larva” da negligência com a família

 

Há cristãos que se preocupam com atividades religiosas, mas negligenciam a vida espiritual dentro de casa. Falam de Deus na igreja, porém não cultivam o diálogo, a oração, o perdão e o exemplo cristão no lar.

 

Outros deixam de orientar os filhos nas Escrituras, não se interessam pela caminhada espiritual do cônjuge ou permitem que as preocupações materiais consumam todo o tempo e a atenção da família.

A família não deve competir com a igreja, nem a igreja deve servir de desculpa para negligenciar a família. Ambas as responsabilidades precisam ser tratadas com fidelidade diante de Deus.

 

A fé deve produzir frutos em casa, onde nossas palavras, atitudes e prioridades são conhecidas de perto.

 

10. A “larva” da negligência evangelística e da falta de serviço

 

O cristão foi chamado não apenas para receber, mas também para servir.

 

Entretanto, alguns passam anos ouvindo sermões sem colocar em prática o que aprendem. Recebem cuidado, mas não cuidam de ninguém. Desfrutam da comunhão, mas não se dispõem a ajudar. Conhecem o Evangelho, mas raramente se preocupam em compartilhá-lo com quem ainda não conhece Cristo.

 

A igreja precisa de pessoas que orem, ensinem, evangelizem, visitem, contribuam, acolham, sirvam e cuidem umas das outras.

 

Nem todos terão as mesmas capacidades, oportunidades ou condições. Mas cada cristão deve buscar, diante de Deus, uma maneira fiel de servir conforme os dons e as possibilidades que recebeu.

 

A fé que nunca se traduz em obediência prática precisa ser examinada à luz das Escrituras.

 

11. A “larva” da confiança excessiva em si mesmo

 

Talvez uma das armadilhas mais perigosas seja pensar: “Isso nunca acontecerá comigo!”

 

Foi justamente essa confiança que tornou Pedro vulnerável à sua própria queda. Ele declarou sua disposição de permanecer fiel a Jesus, mas acabou negando o Senhor três vezes.

 

Não devemos viver dominados pelo medo, mas também não podemos viver despreocupados com nossa condição espiritual.

 

A Bíblia diz: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Coríntios 10.12).

 

Quem reconhece sua fraqueza busca a graça de Deus, vigia, ora, aceita conselhos sábios e evita situações que alimentam a tentação. Quem acredita ser invulnerável pode deixar de tomar justamente os cuidados de que mais necessita.

 

O mais assustador é que a destruição pode parecer imperceptível

 

Voltemos à imagem da tarântula.

 

Enquanto a larva cresce, a aranha pode continuar existindo. Ainda está ali. Ainda possui a aparência de vida. Mas algo está consumindo seus recursos vitais.

 

Assim também pode acontecer com um cristão negligente.

 

Ele ainda conhece os cânticos, mas perdeu a alegria de adorar. Ainda ouve a Palavra, mas já não permite que ela o confronte. Ainda fala sobre oração, mas quase não ora. Ainda defende a importância da igreja, mas vive como se pudesse caminhar sozinho. Ainda condena determinados pecados, mas protege cuidadosamente aqueles que escolheu tolerar.

 

É possível conservar a aparência exterior enquanto se perde a vitalidade interior.

 

E há um agravante: quando outras pessoas percebem o problema, o próprio cristão pode se ofender. A correção parece perseguição; a advertência parece exagero; o chamado ao arrependimento parece falta de amor.

 

Mas o amor verdadeiro não se cala diante do perigo. Quem vê alguém caminhando em direção a um abismo não demonstra bondade permanecendo em silêncio.

 

Precisamos, porém, fazer uma distinção importante: nem todo crente desanimado está sendo tragado pelo diabo, nem toda dificuldade espiritual significa que alguém perdeu a fé. Há cristãos sinceros que enfrentam enfermidades, luto, esgotamento, tentações e períodos de profunda luta interior. Essas pessoas precisam de acolhimento, paciência, oração e cuidado pastoral, não de acusações precipitadas.

O alerta bíblico não existe para esmagar os fracos, mas para despertar os negligentes, fortalecer os cansados e conduzir todos nós a uma dependência mais profunda de Cristo.

 

Ainda há tempo para despertar!

 

A boa notícia é que a advertência de Pedro não termina no versículo 8. No versículo seguinte, ele nos chama a resistir firmes na fé. E, nos versículos 10 e 11, aponta para o Deus de toda graça, que nos aperfeiçoa, confirma, fortifica e fortalece.

 

O mesmo texto que nos alerta contra o inimigo nos lembra que não estamos abandonados à nossa própria força.

 

Portanto, se você reconhece alguma dessas “larvas” em sua vida, não esconda o problema. Não o justifique. Não espere que ele se torne maior. Corra para Deus em arrependimento e fé.

 

Volte à Palavra. Retome uma vida perseverante de oração. Procure a comunhão dos irmãos. Confesse seus pecados a Deus e, quando necessário, busque ajuda pastoral madura e confiável. Repare os danos que puder reparar. Perdoe. Abandone aquilo que alimenta a tentação. Retome o serviço cristão. Coloque Cristo novamente no centro de suas prioridades.

 

Não tente apenas recuperar uma aparência religiosa. Busque renovação verdadeira, que começa no coração e se manifesta em uma vida de arrependimento, fé e obediência.

 

E, acima de tudo, não confie em suas próprias forças. Nossa segurança definitiva não está na capacidade de nos protegermos sozinhos, mas na graça de Deus, na obra de Cristo e na ação sustentadora do Espírito Santo.

 

Vigiar não é viver apavorado com o diabo; é viver atento à Palavra, dependente de Deus e firme em Cristo.

 

Uma pergunta que precisamos responder

 

Irmão, irmã, como está sua vida espiritual hoje?

 

Não pergunto há quantos anos você frequenta a igreja. Não pergunto quantos versículos conhece, quantos hinos sabe cantar ou quantas atividades religiosas já realizou.

 

Pergunto: como está seu coração diante de Deus?

 

Existe algum pecado que você está tolerando? Sua vida de oração está viva ou foi reduzida a palavras ocasionais? Você tem se alimentado das Escrituras? A comunhão da igreja ainda é importante para você? Existe alguém a quem precisa perdoar? Seu amor por Cristo continua governando suas escolhas? Você ainda sente o desejo de crescer em santidade e servir ao Senhor?

 

Não responda pensando nos outros. Não use estas palavras para identificar quem precisa ouvi-las. Permita que a Palavra examine você primeiro.

 

Talvez algumas “larvas” já tenham encontrado lugar em sua vida. Talvez você tenha se acostumado a uma condição espiritual que antes o entristeceria. Talvez ainda não tenha percebido o quanto se afastou.

 

Mas hoje é dia de ouvir a advertência de Deus.

 

Não espere perder a sensibilidade espiritual para reconhecer o perigo. Não espere que o pecado destrua sua família, que a indiferença esfrie completamente sua fé ou que o afastamento da comunhão se transforme em abandono definitivo.

 

O perigo não é apenas cair de repente; é acostumar-se a perder a vitalidade espiritual pouco a pouco, sem perceber que está acontecendo.

 

O diabo continua procurando a quem possa tragar. Por isso, a igreja precisa despertar. Precisamos vigiar, orar, permanecer na Palavra, cultivar a comunhão, resistir ao pecado e fortalecer uns aos outros na fé.

 

Que o Senhor nos livre de uma religião apenas exterior e nos conceda uma vida cristã verdadeira, perseverante e frutífera.

 

Que ninguém entre nós descubra tarde demais que, enquanto cuidava da aparência, negligenciava a alma.

 

E que, pela graça de Deus, possamos permanecer firmes em Cristo, até o dia em que nosso Senhor Jesus voltar em glória.

 

Não espere que as marcas da destruição se tornem evidentes para começar a cuidar da sua alma. Vigie hoje. Arrependa-se hoje. Volte-se para Cristo hoje.

 

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” – 1 Pedro 5.8 (ARC)

 

Tarde demais

 

TARDE DEMAIS

Com base na parábola do rico e Lázaro – Lucas 16.19-31

Houve um tempo em que tudo parecia estar ao alcance daquele homem.

A mesa estava sempre posta. O vinho não faltava. As roupas eram finas, a casa era confortável, e os dias passavam entre banquetes, conversas e prazeres. Ele tinha dinheiro para comprar quase tudo o que desejava. Se algo lhe faltava, bastava abrir a bolsa.

Quase tudo...

Do lado de fora de sua porta, havia um homem chamado Lázaro. Não tinha banquetes, roupas elegantes nem amigos influentes. Tinha feridas no corpo, fome no estômago e uma esperança silenciosa de que alguém lhe desse ao menos as migalhas que caíam da mesa do rico.

A porta que separava os dois era pequena demais para parecer importante, mas grande o suficiente para revelar a distância entre dois corações.

O rico entrava e saía. Lázaro permanecia ali. O rico se acostumou com a presença do pobre, como nos acostumamos com aquilo que já não nos incomoda. Talvez o visse todos os dias. Talvez até soubesse seu nome. Mas saber o nome de alguém não significa reconhecer sua humanidade.

E assim os dias passaram.

O rico não imaginava que a vida pudesse terminar. Afinal, tinha recursos, conforto e muitas coisas a fazer no dia seguinte. Sempre haveria outro jantar, outra oportunidade, outro momento para pensar nas coisas de Deus. A eternidade podia esperar.

Até que um dia não houve amanhã.

Lázaro morreu.

O rico também morreu.

E foi então que tudo mudou.

Aquele que vivia cercado de luxo encontrou-se em tormento. Aquele que jazia à porta, desprezado e sofrido, foi levado pelos anjos para junto de Abraão. O homem que tinha tudo na terra agora suplicava por uma gota de água. Aquele que não conseguia obter nem as migalhas de uma mesa passou a desfrutar do consolo eterno.

O rico levantou os olhos e compreendeu, tarde demais, que a morte não havia encerrado sua existência. Havia apenas encerrado suas oportunidades terrenas.

Então fez um pedido. Não pediu ouro, não pediu uma nova casa, não pediu que seus banquetes fossem restaurados. Pediu que Lázaro molhasse a ponta do dedo em água e refrescasse sua língua.

Uma gota!

Quem sabe quantas vezes Lázaro desejou apenas uma migalha. Agora, o rico desejava apenas uma gota. Mas havia um abismo.

Um abismo que nenhum dinheiro poderia atravessar.

Foi então que ele se lembrou dos irmãos. Ainda estavam vivos. Ainda tinham tempo. Ainda podiam ouvir a Palavra de Deus e mudar o rumo de suas vidas. Pediu que Lázaro fosse enviado para adverti-los, para que não terminassem naquele mesmo lugar de tormento.

Mas a resposta foi solene: eles tinham Moisés e os Profetas; que os ouvissem.

O rico insistiu. Argumentou que alguém ressuscitado dos mortos certamente os convenceria.

Entretanto, a tragédia daquela história está justamente aqui: o homem só passou a valorizar a advertência quando já não podia mais aproveitá-la. Só desejou que seus irmãos ouvissem quando ele próprio já não tinha como voltar. Só compreendeu a urgência da eternidade quando suas oportunidades haviam terminado.

Tarde demais!

Essa é uma das expressões mais dolorosas da existência humana.

Tarde demais para pedir perdão a quem já partiu. Tarde demais para abraçar aquele que esperou durante anos por um gesto de carinho. Tarde demais para reparar uma palavra cruel. Tarde demais para recuperar o tempo desperdiçado com os filhos, negligenciados em nome de tantas ocupações. Tarde demais para reconhecer que a vida inteira foi construída em torno de coisas que a morte não permite levar.

Mas existe algo ainda mais grave: chegar ao fim da vida sem estar preparado para encontrar-se com Deus.

Vivemos como se a eternidade fosse uma hipótese distante. Adiamos o arrependimento, protelamos a reconciliação com Deus, ignoramos a voz das Escrituras e imaginamos que haverá sempre outra oportunidade.

Amanhã eu oro. Amanhã eu volto para Deus. Amanhã abandono esse pecado. Amanhã levo a fé a sério. Amanhã procuro a igreja. Amanhã resolvo minha vida espiritual.

Mas quem nos garantiu o amanhã?

O rico da parábola não foi condenado simplesmente porque possuía riquezas, nem Lázaro foi recebido no consolo eterno simplesmente porque era pobre. A narrativa nos confronta com realidades espirituais profundas: a responsabilidade diante de Deus, a seriedade da eternidade e a necessidade de ouvir sua Palavra enquanto ainda há tempo.

O problema do rico não era apenas o que tinha nas mãos, mas o que faltava em seu coração. Sua vida revelava uma existência indiferente a Deus e ao próximo. Ele vivia como se os bens terrenos fossem suficientes e como se a eternidade não exigisse preparação.

E nós? O que estamos fazendo com o tempo que ainda temos?

Talvez ainda haja alguém a quem precisamos pedir perdão. Talvez exista um pecado que insistimos em esconder. Talvez estejamos tão ocupados em construir uma vida confortável que tenhamos esquecido de preparar nossa alma para a eternidade.

Ou talvez estejamos adiando a decisão mais importante de todas: arrepender-nos dos nossos pecados e confiar verdadeiramente em Jesus Cristo.

A Bíblia não nos chama a viver aterrorizados diante da morte, mas despertos diante da realidade. O mesmo Deus que nos adverte também nos oferece sua graça. Em Cristo há perdão para o pecador arrependido, reconciliação com Deus e esperança de vida eterna.

Por isso, não despreze a oportunidade que a graça de Deus lhe concede hoje.

A porta ainda está aberta. A Palavra ainda pode ser ouvida. O chamado ao arrependimento ainda ressoa. E enquanto há vida, não devemos tratar como banal aquilo que tem consequências eternas, porque chegará o momento em que as decisões desta vida não poderão mais ser refeitas.

E, naquele dia, não será o dinheiro que responderá por nós. Não serão os títulos, a posição social, a fama ou as realizações pessoais. Nossa única esperança está na graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo.

Não espere a eternidade para descobrir o valor de uma vida com Deus. Não espere perder para reconhecer o que deveria ter valorizado. Não espere a última hora para buscar aquele que hoje o chama.

O rico teve seus dias de abundância, mas não aproveitou o tempo para ouvir a Deus. Quando finalmente compreendeu a gravidade de sua situação, já não podia mudar seu destino.

E sua história permanece registrada nas Escrituras como uma advertência solene a todos nós.

Hoje é tempo de ouvir. Hoje é tempo de arrepender-se. Hoje é tempo de buscar o Senhor, porque, diante da eternidade, a palavra mais triste que alguém pode pronunciar talvez seja esta: TARDE DEMAIS!

“Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto”. – Isaías 55.6 (ARC)

 

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15 de outubro de 2026

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Quero me perder em Deus

 

QUERO “ME PERDER” EM DEUS.

Quero estar em Cristo de tal maneira, tão profundamente, que Ele seja o meu tudo e que todas as outras coisas ocupem o lugar que devem ocupar: o lugar de coisas secundárias.

Quero chegar a esse lugar espiritual em que já não vivo escravo do “ter” ou do “não ter”. Ter ou não ter, possuir ou perder, ser honrado ou esquecido, receber ou não receber – nada disso pode definir minha alegria, porque minha vida está escondida em Cristo.

Quero aprender a dizer com Paulo: _“Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é ganho”_ (Fp 1.21).

Não porque a vida aqui não tenha valor, nem porque eu queira fugir dela, mas porque, estando em Cristo, a vida já encontrou seu sentido. E, se um dia a morte vier (e virá, se Cristo antes não voltar), ela não poderá tirar Cristo de mim; apenas me conduzirá à sua presença de maneira ainda mais plena.

Quero viver neste mundo sem pertencer a ele.

Quero receber suas dádivas sem fazer delas meus deuses.

Quero desfrutar o que Deus me dá sem colocar meu coração naquilo que Ele mesmo pode tomar de volta.

Quero ser tão encontrado em Cristo que, no fim das contas, reste uma única certeza: tendo Cristo, tenho tudo; e perdendo tudo, mas permanecendo em Cristo, não perdi o essencial.

Quero “me perder” em Deus a ponto de que minha maior riqueza não seja aquilo que tenho, minha maior segurança não seja aquilo que que vier a possuir, minha maior alegria não seja aquilo que acontece comigo, e meu maior desejo não seja simplesmente continuar vivendo.

Quero que meu coração chegue a este lugar: Cristo é suficiente.

Aqui ou lá.
Na abundância ou na falta.
Na saúde ou na fraqueza.
Na vida ou na morte.

Eu pertenço a Cristo.

E, pertencendo a Ele, já tenho tudo.

De quem precisa muito, muito, muito, da graça de Deus para que seja assim,

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

08 de outubro de 2026

Quem sou eu na videira?

 

QUEM SOU EU NA VIDEIRA?

Em João 15, Jesus fala de si mesmo como sendo a Videira Verdadeira.

E o Pai, diz Jesus, é o Lavrador.

No versículo 5, Ele diz que nós somos as varas – os ramos – dessa videira.

Então, temos uma imagem muito clara: Jesus é a Videira Verdadeira, nós somos os ramos e o Pai é o Lavrador.

Agora, observe o que Jesus diz no versículo 2 sobre o cuidado do Lavrador com a videira, para que ela continue frutificando. A videira está saudável, mas os ramos precisam ser tratados. Alguns precisam apenas ser limpos e podados; outros, porém, precisam ser retirados.

Isso nos coloca diante de uma pergunta séria: Quem sou eu na videira?

Sou um ramo frutífero que precisa apenas de uma poda?

Ou sou um ramo que precisa ser arrancado porque se recusa a frutificar?

Todo servo de Deus precisa cumprir o seu papel. Precisa trabalhar com os “talentos” que Deus lhe confiou, como Jesus demonstra na parábola registrada em Mateus 25.

É preciso trabalhar de acordo com aquilo que recebemos.

Quem recebeu cinco, trabalha com cinco.
Quem recebeu dois, trabalha com dois.
Quem recebeu um, trabalha com um.

O que não podemos fazer, de forma alguma, é esconder o talento.

O que não podemos fazer é simplesmente não fazer nada.

Em outra parte das Escrituras, em Jeremias 48, lemos: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente...”

O contexto é uma profecia contra Moabe e uma advertência àqueles que seriam instrumentos na execução do juízo de Deus. A advertência é para que a obra do Senhor não fosse realizada de maneira negligente, displicente ou preguiçosa. A ideia é clara: a obra de Deus exige seriedade, zelo e obediência. Não pode ser feita de qualquer maneira.

Agora, voltemos a João 15.

Depois de tudo isso, a pergunta continua diante de nós:

Quem sou eu na videira?

Que tipo de ramo sou eu?

Um ramo que precisa apenas de uma poda? Um ramo que precisa ser limpo e tratado para continuar produzindo? Ou um ramo que precisa ser arrancado?

O Grande Lavrador encontrará fruto em mim?

E aqui precisamos entender uma coisa: fruto, nesse contexto, não significa apenas “almas ganhas para Cristo”. Fruto também é amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Fruto é obediência, serviço, evangelização, perseverança, santidade, adoração, oração, perdão, humildade, generosidade, presença...

São virtudes espirituais, virtudes relacionais e atitudes práticas que demonstram que a vida de Cristo está, de fato, produzindo efeitos em nós.

Se essas coisas estão presentes – ainda que de maneira imperfeita – então sou um ramo que o Lavrador continuará limpando, tratando e podando para que produza ainda mais fruto, porque poda também é cuidado. Às vezes, Deus precisa retirar coisas de nós para que possamos produzir mais para Ele.

Mas e se não há fruto?

E se não há mais interesse pela vinha?

E se, mesmo sem dizer isso com os lábios, a minha vida demonstra que pouco me importa se a vinha cresce ou morre?

O que fará o Lavrador?

É Jesus quem responde: “Ele tira.”

E, mais adiante, fala sobre aquele que não permanece nEle: “é lançado fora”.

É uma palavra séria.

Uma palavra que não deveria ser recebida apenas pensando nos outros, mas olhando para dentro de nós mesmos.

Quem sou eu na videira?

Não é uma pergunta para o meu irmão.

Não é uma pergunta para o pastor.

Não é uma pergunta para aquele que está sentado ao meu lado.

É uma pergunta para mim.

Que ramo sou eu?

Estou frutificando?

Preciso de poda?

Preciso ser limpo?

Estou permanecendo na Videira?

Encontrará o Grande Lavrador fruto em mim?

Que cada um de nós tenha coragem para olhar para a própria vida e responder, porque o tempo está passando.

Paulo nos lembra:

“E isto digo, conhecendo o tempo, que é já hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto de nós do que quando aceitamos a fé. A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz.” (Romanos 13:11-12 – ARC)

 

Somente pela graça,

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

08 de outubro de 2026

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Não existe "guarda compartilhada" entre Deus e Satanás.

 

NÃO EXISTE “GUARDA COMPARTILHADA” ENTRE DEUS E SATANÁS

 

A humanidade pode ser observada, à luz das Escrituras, em três tipos de comportamento espiritual:

1.     Há aqueles que pertencem a Deus e vivem para Ele;

2.     Há aqueles que, permanecendo em rebelião contra Deus, estão debaixo do domínio do pecado e de Satanás;

3.     E há aqueles que imaginam poder viver entre os dois, dando a Deus uma parte da vida e reservando outra parte para si mesmos e para os valores deste mundo.

A Bíblia, porém, não reconhece essa terceira posição como uma verdadeira alternativa.

Entre Deus e Satanás não existe guarda compartilhada.

Jesus foi absolutamente claro: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6.24).

Ele não disse que é difícil servir a dois senhores. Disse que não é possível.

Mais adiante, declarou: “Quem não é comigo é contra mim” (Mt 12.30).

Biblicamente, portanto, não existe uma neutralidade espiritual permanente.

O coração humano pode até imaginar que está no meio, mas, diante de Deus, existe uma questão fundamental: a quem pertencemos e a quem servimos?

 

O PRIMEIRO GRUPO é formado por aqueles que pertencem a Deus.

Não são pessoas perfeitas nem pessoas que nunca pecam. São pecadores que foram alcançados pela graça, reconciliados com Deus por meio de Cristo e passaram a viver sob o senhorio de Jesus.

Paulo diz: “E vós sois de Cristo, e Cristo, de Deus” (1Co 3.23).

Pedro afirma que os cristãos são povo adquirido para Deus (1Pe 2.9).

Pertencer a Deus significa que a nossa vida já não nos pertence como antes: “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (1Co 6.20).

Essa exclusividade não significa que o cristão nunca tropeça.

Significa que sua lealdade fundamental mudou.

Ele pode cair, mas não deseja permanecer no chão;

pode pecar, mas não faz do pecado sua habitação;

pode ser tentado, mas não reconhece o pecado como seu senhor.

Ele pertence a Cristo.

Por isso Paulo pôde dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).

 

O SEGUNDO GRUPO é formado por aqueles que permanecem fora de Cristo e debaixo do domínio das trevas.

A Bíblia utiliza uma linguagem bastante séria para descrever essa condição.

Jesus disse a alguns de seus opositores: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (Jo 8.44).

Paulo afirma que o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos (2Co 4.4),

E Efésios descreve os que vivem sem Cristo como estando mortos em delitos e pecados e andando “segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar” (Ef 2.1-3).

Isso não significa que todo incrédulo seja conscientemente um adorador de Satanás. Muitos jamais diriam que pertencem a ele. Pelo contrário, podem ser pessoas moralmente respeitáveis, religiosas, generosas e até sinceramente convencidas de que estão no caminho certo. Mas a Bíblia não define pertencimento espiritual simplesmente pela sinceridade da pessoa. Quem não está reconciliado com Deus por meio de Cristo permanece em seus pecados.

É justamente aqui que aparece o terceiro grupo...

 

O TERCEIRO GRUPO é composto por aqueles que, consciente ou inconscientemente, querem uma espécie de “guarda compartilhada”.

Querem Deus, mas também querem o pecado.

Querem Cristo, mas não querem abrir mão do senhorio próprio.

Querem a bênção de Deus, mas não necessariamente a autoridade de Deus.

Querem o céu, mas não querem viver sob o governo do Rei.

Querem Jesus como Salvador, mas não como Senhor.

Essa tentativa de dividir a vida entre Deus e o mundo é antiga. Israel, por exemplo, tentou misturar a adoração ao Senhor com a adoração a Baal. E o profeta Elias confrontou essa indecisão no monte Carmelo: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.” (1Rs 18.21)

Observe a força da pergunta do profeta Elias.

Elias não oferece uma terceira alternativa.

Não diz: “Escolham quanto de Deus vocês querem e quanto de Baal desejam conservar”. Ele exige uma decisão: Se o Senhor é Deus, sigam o Senhor.

Séculos depois, Tiago trataria do mesmo problema sob outra forma: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?” (Tg 4.4). A palavra é dura porque o problema é sério. A pessoa que pretende manter comunhão com Deus enquanto abraça deliberadamente aquilo que Deus condena está tentando estabelecer uma aliança impossível.

João também não deixa espaço para essa “zona neutra”: “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15). Não significa que devemos odiar as pessoas, abandonar a sociedade ou desprezar a criação de Deus. Significa não fazer do sistema de valores rebelde contra Deus o objeto de nosso amor e lealdade.

O próprio apóstolo Paulo apresenta o contraste de maneira impressionante: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). Cristo não aceita ser apenas um cômodo acrescentado à casa da nossa vida. Ele é o fundamento.

É por isso que a conversão bíblica não é simplesmente acrescentar Jesus àquilo que já somos. É uma mudança de reino. Colossenses 1.13 diz que Deus “nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”. Veja os verbos: fomos tirados de um domínio e transportados para outro. Há uma transferência de pertencimento.

Antes de Cristo, éramos escravos do pecado; mas agora, em Cristo, tornamo-nos servos da justiça (Rm 6.17-18).

Antes, andávamos segundo o curso deste mundo; mas agora somos chamados a andar em novidade de vida (Rm 6.4).

Antes, vivíamos para nós mesmos; mas agora, “se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos” (Rm 14.8).

A grande tragédia do que estamos chamando aqui de “guarda compartilhada” espiritual é que ela cria uma falsa sensação de segurança. A pessoa pensa: “Eu sou de Deus, mas não preciso abandonar isso”; “Eu amo Jesus, mas quero continuar vivendo como antes”; “Eu pertenço à igreja, mas determinadas áreas da minha vida não dizem respeito a Deus.”

Mas o senhorio de Cristo não funciona por departamentos. Jesus não quer apenas uma parte de nossa vida, de nossa agenda... ele nos quer integralmente – quer nossa vida “toda”.

Quem fica “em cima do muro” quanto a isso ainda, por duro que seja dizer isso, “pertence a Satanás”. É como na história que diz que havia um muro, e que de um lado do muro estava Satanás, outros anjos caídos e algumas pessoas. Do outro lado estavam anjos não caídos e pessoas que servem a Cristo. E em cima do muro havia algumas pessoas também. E a essas pessoas que estavam em cima do muro, os do lado dos anjos não caídos e pessoas que servem a Cristo convidavam veementemente para que “pulassem para o lado deles”. Já os do lado do muro onde estavam satanás, anjos caídos e outras pessoas, nada faziam. Então um “observador”, curioso, perguntou: “Por que eles convidam os que estão em cima do muro para pularem para o lado deles e vocês não?”. E Satanás respondeu simplesmente: “o muro é meu”.

Não existe guarda compartilhada.

Não podemos entregar o coração a Deus aos domingos e ao pecado durante a semana.

Não podemos chamar Jesus de Senhor e reservar para nós mesmos o direito de decidir quais mandamentos obedeceremos.

Não podemos querer o reino de Deus e, ao mesmo tempo, fazer aliança com aquilo que se opõe ao Rei.

Ou pertencemos a Cristo, ou permanecemos fora dele.

Não existe guarda compartilhada entre Deus e Satanás.

 

Somente pela graça,

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

15 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

Expectativa do Céu


EXPECTATIVA DO CÉU

Em o livro O Peregino, John Bunyan escreveu: “Para Cristão, a expectativa do céu é o que o impulsiona a ter uma vida piedosa e de serviço sacrificial”.

A frase expressa uma verdade profundamente bíblica: a esperança do céu nos fortalece para viver a vida cristã com santidade, perseverança e amor sacrificial.

Será que você e eu temos e vivemos verdadeiramente essa expectativa?

Às vezes, em algum momento e por alguma razão, dizemos que temos, mas a nossa maneira de viver é que mostra se ela é verdadeira ou não.

Então façamos um teste, analisando o seguinte:

1.     A expectativa do céu dá direção à vida presente – uma direção diferente da que o mundo segue

O cristão não vive apenas olhando para o que está diante dos seus olhos. Ele caminha tendo em vista a pátria celestial e não como quem vai “ficar por aqui mesmo”. Em O Peregrino, Cristão atravessa dificuldades porque sabe que sua jornada tem um destino: a Cidade Celestial.

Essa é também a perspectiva de Paulo: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” Romanos 8.18. A esperança futura não torna os sofrimentos pequenos, mas mostra que eles não terão a palavra final.

E aí? Passou nesse primeiro teste? Você vive com os olhos voltados para o céu ou para a terra e, portanto, muito preocupado e ocupado com as coisas da terra ao ponto de não ter tempo para as “coisas do céu”?

Vamos adiante no teste:

2.     A esperança do céu estimula uma vida piedosa

A frase não significa que o cristão deve viver bem apenas para receber uma recompensa. A vida piedosa nasce do amor a Deus e da transformação operada pelo Espírito Santo. Entretanto, a esperança da glória alimenta esse desejo de santidade.

Paulo diz: “E todo o que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.” 1 João 3.3

Quem aguarda encontrar-se com Cristo deseja viver de modo coerente com essa esperança. O céu não é apenas o lugar para onde vamos; é uma realidade que já começa a transformar a maneira como vivemos “agora”.

Uma “dica”: se você já não tem tempo ou disposição mais para um bom e substancioso “momento com Deus” onde você ora e lê a Palavra, e se não tem tempo ou disposição mais para viver a “vida da igreja”- não uma religiosidade sem vida, mas a vida da igreja –, e se para você não tem problema cometer um ato de infidelidade a Deus em “benefício próprio na terra”, é hora de acender a “luz de alerta”.

Passou no teste?

Então vamos a mais uma questão:

3.     A esperança do céu sustenta o serviço sacrificial

O cristão pode servir mesmo quando não recebe reconhecimento, quando enfrenta oposição ou quando seus esforços parecem pouco frutíferos. Por quê? Porque sabe que seu trabalho não é inútil diante do Senhor.

É o que Paulo afirma: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” 1 Coríntios 15.58

Observe a ligação: Paulo fala da ressurreição e, em seguida, chama os crentes à perseverança. A esperança futura não produz acomodação, mas firmeza e abundância no serviço.

Passou nesse também?

Então vamos à última questão, que é bem importante também:

4.     O céu nos ensina a servir sem transformar o serviço em um fim

Há um perigo até mesmo no trabalho cristão: podemos servir tanto que nos esquecemos de para quem estamos servindo. A expectativa do céu nos lembra que Cristo é o nosso verdadeiro tesouro.

O serviço sacrificial não é uma tentativa de comprar a salvação. É a resposta de quem já foi alcançado pela graça e aguarda a consumação dessa salvação.

“Porque a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” Filipenses 3.20

A pátria celestial nos dá uma identidade que não depende do reconhecimento deste mundo. Por isso, podemos servir com humildade, perseverar com paciência e sofrer sem perder a esperança.

Conclusão

Se você passou no “teste”. PARABÉNS! Continue assim e cresça cada vez mais.

Mas se não passou, é hora de deixar tudo de lado e parar para refletir seriamente sobre quem é você, em “que” e “quem” você crê e o que você está fazendo.

A expectativa do céu não nos faz abandonar a terra, mas nos ensina a viver nela com os olhos em Cristo, as mãos no serviço e o coração cheio de esperança.

 

E uma última palavra para você que é cristão, mas talvez esteja “cansado de servir”:

 

Essa frase do livro O Peregrino” fala especialmente ao cristão que está cansado de servir. Àquele que talvez pense: “Tenho feito tanto, mas parece que ninguém percebe.”

A esperança do céu nos lembra que o valor do nosso serviço não depende da quantidade de aplausos que recebemos, mas da fidelidade daquele a quem servimos.

Não servimos para que os homens nos vejam. Servimos porque Cristo nos amou, porque pertencemos a Ele e porque aguardamos o dia em que estaremos para sempre em sua presença.

 

Na graça, pela graça, dependente da graça...

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

06 de setembro de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Preocupação com os filhos... e netos

 

PREOCUPAÇÃO COM OS FILHOS... E NETOS

Acordei hoje com essa reflexão na mente.

Me lembro bem de meu pai nos levando, a mim e às minhas irmãs, aos trabalhos da igreja. Éramos uma família presente na vida da igreja. EBD, cultos dominicais, União de Treinamento, cultos de oração, cultos ao ar livre, cultos nos lares... lá estávamos nós... o máximo possível. E quando tinha alguma campanha de levantamento de ofertas – Missões, por exemplo – nossa oferta era maior que a dele, para incentivar as crianças.

Mas tenho observado, de alguns anos para cá, que aquela preocupação antiga dos pais crentes de “criarem os filhos na igreja”, por alguma razão, tem se esmorecido.

Se eu fechar os olhos e pensar por um minuto nisso, consigo ver, na minha mente, muitos, “de aqui e de acolá”, que têm assumido essa atitude mais despreocupada. Filhos pequenos, de 1, 2, 5, 10 anos, que já não estão sendo levados com a mesma disposição ao convívio da igreja, à Escola Bíblica Dominical, aos cultos, às atividades e à comunhão com os irmãos.

E talvez alguém diga: “Mas são apenas crianças. Quando crescerem, poderão decidir se querem ou não participar da igreja.”

É verdade que cada pessoa terá de responder individualmente diante de Deus. A fé não pode ser herdada dos pais, e a salvação é uma obra da graça de Deus no coração. Mas isso não elimina a responsabilidade que nós, pais, temos de ensinar nossos filhos, orar por eles, testemunhar diante deles e colocá-los, enquanto podemos, em contato com a Palavra de Deus e com a vida da igreja.

Ninguém acha estranho quando os pais se preocupam em levar os filhos à escola, às consultas médicas, aos cursos, aos esportes e a tantas outras atividades. Nós fazemos isso porque sabemos que essas coisas contribuirão para a formação deles. Então, como poderíamos não ter a mesma preocupação com a formação espiritual?

E a situação se torna ainda mais preocupante quando esses filhos, além de não serem levados à igreja, também não estão recebendo em casa o ensino da Palavra de Deus. Se não há oração em família, se não há leitura da Bíblia, se não há conversa sobre Deus, pecado, salvação, santidade e eternidade, se não há um testemunho cristão consistente dentro de casa, então precisamos perguntar com seriedade: quem está formando o coração dos nossos filhos? Porque alguém está.

Enquanto nós nos omitimos, o mundo não se omite.

A cultura ensina.

A internet ensina.

As redes sociais ensinam.

Os amigos ensinam.

Os influenciadores ensinam.

O mundo está discipulando os nossos filhos todos os dias.

Desse jeito, como será a futura geração?

Pensando de forma puramente humana, sem levar em conta a possibilidade de uma intervenção divina através de um grande avivamento (que venha logo), na melhor das hipóteses poderemos ter uma geração de pessoas que até dizem crer em Deus, que talvez conservem alguns valores morais e até algum temor de Deus, mas que não se importam com a igreja e não entendem o que significa “ser igreja”.

Uma geração que não vê o culto como prioridade.

Uma geração que não sente necessidade da Escola Bíblica.

Uma geração que não valoriza a comunhão dos santos.

Uma geração que talvez ainda diga que crê em Deus, mas que não vê motivo para estar com o povo de Deus, servir ao Senhor, estudar a sua Palavra e participar da vida da igreja.

E isso já seria muito triste.

Mas existe uma possibilidade ainda mais dolorosa.

Na pior das hipóteses, poderemos amargar ver uma geração, composta por nossos filhos e netos, de pessoas completamente descrentes, criadas muito bem para habitar a terra, mas não para o céu.

Teremos ensinado nossos filhos a estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, construir uma carreira, cuidar da saúde, conquistar bens, vencer na vida e alcançar seus objetivos. Teremos feito tudo para que estejam preparados para viver neste mundo.

Mas teremos nos esquecido de prepará-los para a eternidade.

E que tragédia seria essa!

Que adianta criar um filho para ter uma boa profissão, mas não ensiná-lo a conhecer a Deus?

Que adianta prepará-lo para ganhar a vida, mas não ensiná-lo a valorizar a própria alma?

Que adianta nos preocuparmos tanto com o futuro terreno dos nossos filhos e tão pouco com o futuro eterno?

A Bíblia nunca tratou a formação espiritual dos filhos como algo secundário.

Moisés ordenou: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos” (Dt 6.6-7).

O ensino da fé não deve acontecer apenas no templo, nem somente aos domingos. Deve fazer parte da vida. Mas estar no templo. Com a igreja, aprendendo a ser igreja, também é muito importante e deve ser objeto de nossa preocupação.

Por isso, nós precisamos voltar a nos preocupar.

Precisamos voltar a levar nossos filhos para a igreja.

Precisamos voltar a considerar o culto uma prioridade.

Precisamos voltar a valorizar a Escola Bíblica Dominical.

Precisamos voltar a orar com nossos filhos.

Precisamos voltar a abrir a Bíblia dentro de nossas casas.

Precisamos voltar a falar de Deus com naturalidade no cotidiano.

Precisamos voltar a testemunhar diante deles.

Conquanto tenhamos de leva-los à comunhão da igreja, não podemos transferir para a igreja toda a responsabilidade pela formação espiritual deles. A igreja pode ensinar, ajudar, discipular e cooperar. Mas há uma responsabilidade que Deus colocou especialmente sobre os pais.

Nós não podemos garantir que nossos filhos serão salvos. Não podemos produzir fé no coração deles. Não podemos obrigá-los a amar a Deus. Mas podemos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance para colocar diante deles o evangelho, ensinar a Palavra, viver uma vida coerente e conduzi-los ao convívio do povo de Deus.

O tempo passa muito depressa.

A criança que hoje tem cinco anos amanhã terá quinze.

Aquele menino que hoje depende dos pais amanhã tomará suas próprias decisões.

E, quando esse dia chegar, não teremos mais a mesma oportunidade que temos hoje.

Por isso, talvez seja hora de perguntarmos a nós mesmos, com honestidade: estamos criando nossos filhos apenas para a vida na terra ou estamos nos esforçando para apontá-los para a eternidade?

Que Deus nos ajude, como pais, a não negligenciarmos uma responsabilidade tão grande.

Que nossos filhos não sejam apenas bem preparados para viver neste mundo.

Que sejam ensinados, conduzidos e constantemente expostos ao evangelho de Jesus Cristo, enquanto ainda temos essa oportunidade.

O maior legado que podemos deixar para os nossos filhos não é aquilo que colocamos nas mãos deles para esta vida, mas aquilo que, pela graça de Deus, ajudamos a colocar em seus corações tendo em vista a eternidade.

Pense nisso!

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E PARA QUEM TEM PREGUIÇA DE LER TEXTOS MAIS LONGOS:

PREOCUPAÇÃO COM OS FILHOS... E NETOS

Acordei hoje com essa reflexão na mente.

Me lembro bem de meu pai nos levando, a mim e às minhas irmãs, aos trabalhos da igreja. Éramos uma família presente na vida da igreja. EBD, cultos dominicais, União de Treinamento, cultos de oração, cultos ao ar livre, cultos nos lares... lá estávamos nós... o máximo possível. E quando tinha alguma campanha de levantamento de ofertas – Missões, por exemplo – nossa oferta era maior que a dele, para incentivar as crianças.

Mas tenho percebido, de alguns anos para cá, que nós, pais cristãos, já não temos nos empenhado tanto, como antigamente, em integrar nossos filhos à vida da igreja. Não os levamos à Escola Bíblica Dominical, aos cultos e às demais atividades.

E se, além disso, eles também não recebem em casa o ensino da Palavra, se não oramos com eles e se não lhes damos um testemunho cristão, então precisamos nos perguntar: como será a próxima geração?

Pensando apenas humanamente:

Na melhor das hipóteses poderemos ter uma geração que até creia em Deus, mas que não valoriza a igreja nem compreenda o que significa ser igreja.

E na pior, poderemos ver nossos filhos e netos completamente afastados de Deus.

E talvez o mais triste seja isto: podemos estar criando muito bem nossos filhos para viver na terra, mas não para a eternidade com Deus.

Por isso, enquanto podemos, precisamos voltar a integrá-los à igreja, ensiná-los a Palavra, orar com eles e mostrar, pela nossa própria vida, que Cristo e a eternidade são mais importantes do que tudo o que este mundo pode oferecer.

Estamos preparando nossos filhos apenas para a vida terrena ou também para a eternidade?

Pense nisso!

Pr. Walmir Vigo Gonçalves

PIB Muqui – 26 de agosto de 2026

Já fomos tragados, mas ainda não percebemos?

  JÁ FOMOS TRAGADOS, MAS AINDA NÃO PERCEBEMOS?   Um alerta à igreja de Cristo   “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversá...